A Cartilha do Politicamente Incorreto

A moda agora é ser grosso e intolerante, brandar aos quatro ventos que imbecilidades preconceituosas e bagaceiras são “verdades incontestáveis”. Ser “politicamente incorreto” é cool, super moderno. As justificativas mais usadas para tal comportamento são: a liberdade de expressão, o gosto pessoal, o bom senso, ou “o que todo mundo pensa”.

Curiosamente, a maioria que defende o “politicamente incorreto” se diz defensora da moral e dos bons costumes. Eu me pergunto que moral é essa que justifica a humilhação e o preconceito? Quais são os bons costumes de gente que acha certo desrespeitar os outros por qualquer diferença que seja? Um dos valores basilares é o respeito ao próximo, e, conforme vamos amadurecendo, aprendemos a argumentar sem ofender, saber ouvir e se espressar de maneira civilizada.

Essa modinha possui alguns “heróis” bastante conhecidos na mídia, como o deputado Jair Bolsonaro, famoso por dar declarações de cunho racista e homofóbico sob o manto da “liberdade de expressão” e os comediantes (sic) do CQC, com piadas hi-la-ri-an-tes sobre estupro, amamentação, etc. É nessa onda que surgiu o patrulhamento feito pelos politicamente incorretos: qualquer um que discorde de suas opiniões é politicamente correto, o PIOR inimigo da humanidade é o politicamente correto, e por aí vai. O pior pesadelo dessa gente é ser criticada por avacalhar com os outros, por ser sem noção. Um exemplo recente é a vitória da Miss Angola no Miss Universo. Por um lado, é normal ver gente criticando a aparência da vencedora, por ter um gosto pessoal diferente, porém, não é normal xingar e rebaixar a miss só por não achá-la bonita. Expressar sua opinião sobre a beleza (ou a falta dela) em alguém não é equivalente à xingamentos e humilhações, isso parece mais implicância de coleguinhas na escola, bullying mesmo. Não gosta de cabelo crespo? Prefere loiras e de olhos claros? Legal, amigo, mas pra quê usar expressões como “negra aidética”, “parece uma favelada”, “ficaria melhor sem as cagadas na cara”, “macaca em um vestido”? É necessário se referir a alguém de modo tão chulo e bagaceiro? A patrulha chega a ser tão grande que, se alguém diz que a Miss Angola é bonita e mereceu ganhar, esse alguém só diz isso por ser “politicamente correto”. Ninguém pode achar negras bonitas e atraentes agora, é contra a verdade absoluta desses boçais.

Para aqueles que adoram distorcer as coisas: não quero acabar com o politicamente incorreto, não quero censurar ninguém, mas questionamentos são necessários. Questionar não é a mesma coisa que censurar. E não confundam politicamente incorreto com intolerância. O que critico aqui é a postura de ser intolerante e preconceituoso através do “politicamente incorreto”. Uma ironia do destino: politicamente incorreto virou eufemismo para racista/homofóbico/machista/intolerante, não passa, pois, de um termo politicamente correto para o preconceito.

Ter direito à liberdade de expressão torna alguém imune, impossível de sofrer críticas? É isso que os “politicamente incorretos” querem; imunidade total para detonar tudo e todos e AI de quem discorde ou critique suas opiniões tão incrivelmente superiores. Ora, é muito conveniente opinar assim, não exige grandes esforços argumentativos e muito menos um senso crítico apurado, basta inventar qualquer porcaria, colocar em forma de piada/jargão/silogismo aristotélico e VOILÁ, a “verdade universal que ninguém tem coragem de falar” está pronta, bonitinha para uso. Ah! Só não esqueça de puxar a descarga e lavar as mãos depois de usar, ok?

Atualização: sobre a suspensão de Rafinha Bastos do programa CQC, recomendo os seguintes posts; O politicamente incorreto só é errado quando atinge os ricos e Rafinha suspenso do CQC por ofender gente que importa.

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5 thoughts on “A Cartilha do Politicamente Incorreto

  1. Ramiro Catelan diz:

    Muito bom, como sempre. Sintetizou o que penso a respeito desse povo. Me dá uma preguiça de discutir com esse tipo de gente, mas ao mesmo tempo morro de raiva. Como pode existir gente tão estúpida?

  2. ManoPaiva diz:

    Nada a acrescentar a teu comentário. Apenas para dizer que passei por aqui… vim, vi e gostei. Lamento que o CQC tenha rebaixado seu nível, achava (faz tempo que não assisto) suas gozações inteligentes e até bem críticas, mas… parece que se renderam à mídia corporativa. Mesmo com os negros ali na minha 7a. geração, uma ofensa a eles é uma ofensa a mim; e mesmo se fosse caucasiano com a consciência de hoje, faria das tuas palavras o meu repúdio a essa gentinha preconceituosa; quem não vê beleza num negro, índio ou srilanques, não vê beleza no ser humano, não só as físicas mas a beleza da linguagem, dos sotaques, dos trejeitos, dos olhares, belezas cerebrais. Congrats for your comment. ManoPaiva

  3. Vinicius diz:

    Oi! Te achei no blog da Lola!

    Sabe, eu creio que o politicamente incorreto, defendendo a liberdade de expressão e sendo contra qualquer tipo de censura é o produto do próprio liberalismo que, ao defender tais valores, partiu de um pressuposto onde haveria coerção para evitar, por exemplo, “abusos da liberdade” – A democracia liberal, tolerante e etc, parte do pressuposto da coisa sem a sua essência.

    O problema é que os conservadores duvidaram disso. por incrível que pareça, o fato deles não serem, neste quesito, alienados, se torna algo ruim.

    É neste ponto que eu coloco como o verdadeiro inimigo, a democracia liberal, que fomenta essa posição conservadora.

    • O problema do liberalismo é negar que um controle deve ser feito. A fórmula mágica de “todos são livres e saberão o que fazer com essa liberdade” é errônea. Se não houvesse regras, a liberdade de alguns acabaria limitando a de outros. Os meus direitos terminam quando os seus começam, só assim é possível a construção de uma sociedade civilizada, já que a moralidade precisa ser estimulada e forçada para tornar-se um valor intrínseco.

      • Vinicius diz:

        O liberalismo pressupõe um controle difuso. Pressupõe normas sociais que serão obedecidas naturalmente. Pressupõe a consciência coletiva coagindo os sujeitos em seus valores mais profundos ao respeito à propriedade privada, tolerância, etc e etc.

        Quando essa repressão não formalizada como repressão é quebrada, aí tudo se fode. O que vão falar? Que deve haver limites? Mas como assim? Limites no liberalismo? Onde está seu Deus, agora?!

        Abraço

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