Blogagem Coletiva: estupros como presente em Queimadas – PB

Post para a Blogagem Coletiva iniciada pelo Luluzinha CampBlogueiras Feministas.

Portal Belmonte Notícias

Como muitos, fiquei sabendo desses crimes absurdos através de blogs e artigos na internet (aqui, aqui, aqui e aqui, pra começar). Apesar de saber que vivemos em uma sociedade machista, que naturaliza o estupro, nunca deixarei de me chocar com crimes tão cruéis como esse, eu não quero acreditar que 10 homens normais (nada de tarados psicopatas desconhecidos em becos escuros), amigos e familiares das vítimas, se sentiram tão merecedores de seus corpos que planejaram os estupros como “presente” de aniversário. Não quero acreditar que as mulheres são vistas assim, como meros objetos sexuais, sem vontades, sem sentimentos. Eram todos psicopatas? Marginais? Anormais? Eram homens comuns, com família, emprego, amigos, etc. Não quero MESMO acreditar que seja assim tão fácil reunir 10 homens para estuprar e matar mulheres. Infelizmente é a realidade, não podemos ignorá-la.

Essa dificuldade em reconhecer mulheres como seres humanos complexos não é coisa de uns poucos criminosos, é de uma sociedade inteira. Somos educadas a nos inferiorizar, e homens são educados para nos inferiorizar também. A palavra “mulherzinha” é um xingamento para quem é fresco, fraco, ou faz coisas consideradas femininas, como cuidar da casa, cozinhar, se arrumar, ou, simplesmente, chorar. Ser mulher é tão humilhante assim para virar xingamento?

Vamos analisar os papéis de gênero. Meninas e meninos são divididos desde cedo, a interação não é encorajada. Os brinquedos voltados para meninas são delicados, meigos, cor-de-rosa. Aprendemos a cozinhar, a cuidar da casa, dos bebês, a valorizar a amizade e a família, a sonhar com contos-de-fada e romances. Devemos ser dóceis e quietas, submissas. Com os garotos é bem diferente. Eles são encorajados a correr, se aventurar, ganham brinquedos violentos e animados. Para eles, nem o céu é o limite, e valores como coragem, bravura, força e dominação lhe são ensinados desde pequenos.  Basicamente: mulheres são criadas para dar carinho e cuidar, enquanto homens, para lutar e dominar. É saudável educar metade da população para a passividade e outra para a agressividade? Separar crianças por gênero dificulta a empatia um pelo outro.

A segregação continua na adolescência. Uma enxurrada de livros e revistas teen surgem com mil e uma explicações sobre como se aproximar do sexo oposto (se a garotada brincasse junta, tais dicas não seriam necessárias). As diferenças ficam mais aparentes (e a mídia adora explorar isso). Começa aquela baboseira toda de “mulheres são de Vênus e homens são de Marte” (deusa do amor e deus da guerra, respectivamente). TCHARAM!! Viramos seres de outra espécie.

 

O “universo feminino” é taxado de fútil, superficial e volúvel. Mulheres são infantilizadas, estéricas e frescas (Sex and the City não me deixa mentir, nem Meninas Malvadas). Tudo o que é feminino é menosprezado pelos homens (e até por nós mesmas!), é menos importante, frescura.

Não termina por aí, também somos objetificadas no clube do bolinha. Comerciais de cerveja são um bom exemplo de como a mulher é vendida ao homem. Um brinquedo/serva sexual, pronta para satisfazer qualquer sede do homem. São mulheres sem vontade própria, sua sexualidade é apenas voltada ao homem, nunca ao prazer próprio.

Até em filmes há uma dificuldade em representar mulheres como seres humanos comuns, e o Bechdel Test analisa isso. É um teste simples: o filme deve conter (1) duas ou mais personagens mulheres que tenham nomes(2) que falam uma com a outra (3) sobre qualquer coisa, menos homens. Se o filme passar no teste, ele representa mulheres como seres humanos, e é incrível como muitos não passam. Mais informações sobre o teste aqui.

Não enxergar a mulher como pessoa é o cerne da cultura de estupro. Quem tenta justificar um estupro, ou culpar a mulher estuprada, não a reconhece como semelhante, como sujeito.  Cultura de estupro é dizer que homens não controlam seus impulsos sexuais, é ensinar meninas e mulheres a não serem estupradas e a responsabilizá-las pelo estupro sofrido. A cultura de estupro pode aparecer através de piadas, ou de estupros coletivos como presente de aniversário.

Obs.: (1) Não, eu não disse que todos os homens são estupradores/maus, critico a ideologia machista (2) tampouco nego que outros grupos de pessoas sejam estereotipados e marginalizados na sociedade (3) o fato de eu apresentar esse problema não quer dizer que negue, ou não me importe, com outros tipos de discriminação. Digo isso porque sempre aparece um zé mané pra falar essas besteiras quando alguém questiona e critica o machismo.

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10 thoughts on “Blogagem Coletiva: estupros como presente em Queimadas – PB

  1. Ramiro Catelan diz:

    Tu matou a pau. Adorei o post, Carol. Não sei o que eu teria a acrescentar. Tu fez uma síntese brilhante do que eu penso sobre o assunto. Orgulho dos teus posicionamentos políticos. Beijo =]

  2. Mariana K diz:

    Oi! Parabéns pelo texto, muito bom! O estuprador só consegue estuprar porque não vê a vítima como uma pessoa, não dá valor à sua integridade e dignidade. E essa violência não brota espontaneamente na cabeça do agressor, ela é construída por toda a sociedade. Está na escola, na tv, até dentro da nossa casa. É assustador.

  3. Marcia diz:

    Adorei seu post, e obrigada por postar o video, achei a idéia fantastica.

  4. Dennis P. Saridakis diz:

    Parabéns, Carolina! Muito bom ver que vc cresceu e se tornou uma mulher inteligente e de personalidade forte! Parabéns pelo post!!! Abraço!

  5. […] Blogagem Coletiva: estupros como presente em Queimadas – PB por Carolina Paiva […]

  6. […] Mais preocupante é quando este discurso retrógrado travestido de “cool” impregna o imaginário das mulheres. Sim, tenho observado muitas mulheres (!), principalmente jovens (!!), disseminando acriticamente o vírus da ignorância. Isso é notável quando analisamos discursos afirmando que feminismo é equiparável ao machismo. Ora, sendo o feminismo, resumindo muitíssimo (entenda mais sobre a história do movimento aqui), a luta por igualdade sexual e de gênero e combate à opressão sexista que nos foi imposta pelos interesses de quem domina o capital (sim, me chamem de comunista – como se todas as opressões não servissem a propósitos majoritários), é absurdo compará-lo ao machismo, que pode ser definido como uma expressão do conservadorismo de uma sociedade em que homens, historicamente, dominam e oprimem as mulheres. Esse machismo estabelecido coloca-se como natural, “imutável”, e é aterrador constatar que várias mulheres atestam e coadunam com uma ideologia/ prática que as subjugou e continua a subjugar, relegando-as à condição de “frágeis”, inferiores. Quem faz colocações machistas, mesmo sem perceber, ajuda a retroalimentar um sistema que permite que atrocidades calamitosas ocorram. […]

  7. […] Mais preocupante é quando este discurso retrógrado travestido de “cool” impregna o imaginário das mulheres. Sim, tenho observado muitas mulheres (!), principalmente jovens (!!), disseminando acriticamente o vírus da ignorância. Isso é notável quando analisamos discursos afirmando que feminismo é equiparável ao machismo. Ora, sendo o feminismo, resumindo muitíssimo (entenda mais sobre a história do movimento aqui), a luta por igualdade sexual e de gênero e combate à opressão sexista que nos foi imposta pelos interesses de quem domina o capital (sim, me chamem de comunista – como se todas as opressões não servissem a propósitos majoritários), é absurdo compará-lo ao machismo, que pode ser definido como uma expressão do conservadorismo de uma sociedade em que homens, historicamente, dominam e oprimem as mulheres. Esse machismo estabelecido coloca-se como natural, “imutável”, e é aterrador constatar que várias mulheres atestam e coadunam com uma ideologia/ prática que as subjugou e continua a subjugar, relegando-as à condição de “frágeis”, inferiores. Quem faz colocações machistas, mesmo sem perceber, ajuda a retroalimentar um sistema que permite que atrocidades calamitosas ocorram. […]

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