Marcha das Vadias 2012 – Porto Alegre

A Marcha de Poa foi simplesmente contagiante! Muita gente apareceu (embora menos do que o esperado, o que é normal) e todos estavam na mesma sintonia. O caráter feminista da Marcha foi inquestionável e felizmente não houve tumultos. O pessoal tirava fotos sem parar e os que não gostavam faziam uma cara feia, no mínimo. A maioria recepcionou a Marcha com alegria e curiosidade.

Agora, as fotos:

Preparação da faixa principal

Marcha em andamento.
Site: G1

Frases deste ano

Acontecimentos recentes

Participação dos homens

Respeito

Andresa, foi muito legal te conhecer na Marcha!

Eu na Marcha

O machismo também prejudica os homens (Ramiro – amigo do peito – e Gabriel)

Marcha Mundial das Mulheres

Gente do Testosterona e blogs afins, é válido querer diminuir um movimento contra a violência sexual à mulher por erros de ortografia em um cartaz?

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Por Que Marcha das Vadias?

Com a proximidade do evento, muitos tem se perguntado o porquê do nome da Marcha. Neste texto, juntarei links de posts sobre a Marcha, para apresentá-la de modo geral.

A Marcha começou no Canadá, após um policial afirmar, em uma universidade, que as mulheres deveriam parar de se vestir como vadias, a fim de evitar estupros. Chamada de SlutWalk, o objetivo da marcha é o de reapropriar o termo “vadia” (slut), e de mostrar que o modo como uma mulher vive sua sexualidade não deve ser visto como justificativa para crimes.

A SlutWalk gerou uma reação em cadeia, e várias Marchas foram feitas em diversas cidades do mundo. A tendência é que a Marcha se espalhe cada vez mais. Cabe a nós mudarmos conceitos nocivos às mulheres, como a objetificação sexual. Se engana quem acredita que a Marcha das Vadias defenda e/ou promova a objetificação da mulher.

A objetificação, é sempre bom lembrar, é a desumanização da mulher, ou seja, a mulher vista como uma coisa genérica, sem personalidade própria, vontades e sentimentos. Se não conseguimos reconhecer um grupo como seres humanos, não há empatia, e a violência contra tal grupo torna-se menos grave, ou até justificável.

Textos excelentes sobre a Marcha:

Marcha das Vadias – Revista TPM

A Marcha das Vadias e a mercantilização do corpo e vida das mulheres – SOF

Viva a Marcha das Vadias! Já a reação a ela… – Escreva Lola Escreva

Oito ideias para entender a Marcha das Vadias – Revista Parafuso

Inevitável é, ao falar sobre a Marcha, esclarecer algumas críticas infundadas. Vamos a elas:

1- É uma manifestação anti-homem. Coloca as mulheres como vítimas e homens como algozes.

Não, não é uma manifestação anti-homem, muito menos uma declaração de ódio aos homens, ou a visão de que todos os homens são estupradores em potencial. O foco da Marcha simplesmente não está nos homens. Isso quer dizer que eles estão proibidos de participar? Evidentemente que não. Todos são bem-vindos e é inclusive importante que homens estejam na Marcha, a preocupação com a violência sexual não é um assunto somente feminino. Mas os homens não são vistos como algozes da objetificação feminina? Não, não há um único responsável pela objetificação, que resulta do machismo. Machismo não é um comportamento intrinsecamente masculino. Há pessoas (homens E mulheres) machistas, creio que em igual proporção. Não vemos homens como vilões, e o mundo não é simplista, não há a luta do bem contra o mal aqui. O lema é a conscientização de todos.

2- As mulheres querem viver irresponsavelmente. Todos nós temos que assumir a responsabilidade por nossos atos. Se eu andar pela rua com dinheiro nas mãos, ou com um relógio caro à vista, não posso reclamar se for assaltado. Do mesmo modo, uma mulher que anda na rua com pouca roupa chama a atenção do estuprador.

Eu não gosto quando comparam estupros a furtos ou roubos, e é uma comparação infelizmente muito comum. Primeiramente, porque não se pode comparar a dignidade sexual de alguém com um bem patrimonial/financeiro; o ser com o ter. Depois, porque esse tipo de raciocínio é muito subjetivo. O que é considerado provocativo? O que acho perigoso é a defesa que alguns fazem ao cerceamento de liberdade de ir e vir das mulheres. Se andar na rua deixa a mulher vulnerável a abusos, e tais abusos são considerados naturais (vide as “cantadas”, ou a passada de mão), e é dever único e exclusivo das mulheres evitar tais abusos, qual é a solução? Ficar em casa (não trabalhar/estudar/sair)?

O abuso sexual é um medo constante das mulheres. Acontece que não há uma cartilha de como ocorre o estupro, não há como prever que alguém é um estuprador. Concordo que todos devem ter cautela, mas o cerceamento da nossa liberdade de ir e vir não faz parte disso. Além disso, a maioria dos estupros ocorrem dentro de casa, e por pessoas conhecidas. Como a roupa influencia nesses casos?

3- A Marcha das Vadias é um incentivo à promiscuidade e ao sexo irresponsável.

Não, a Marcha não promove o sexo irresponsável. A Marcha promove a liberdade sexual da mulher. O que isso significa? Significa que a mulher não deve ser desrespeitada por ter desejo sexual, assim como o homem heterossexual não é. Se a mulher gosta de sexo, se ela teve mais de um parceiro sexual, se ela faz sexo casual, adivinhe só: isso não dá a ninguém o direito de desrespeitar essa mulher; de xingá-la e humilhá-la. Assim como ninguém tem o direito de fazer isso com um homem. Ter desejo sexual e gostar de sexo não é moralmente condenável.

4- Querem obrigar o homem a ficar/namorar/casar com uma mulher “rodada”.

É óbvio que ninguém deva ser obrigado a se relacionar com alguém (vide friendzone). Se não há compatibilidade, parte pra outra e pronto. Não há necessidade de desrespeitar, de xingar. Isso é tão difícil de entender? Uma curiosidade: quantos parceiros sexuais uma mulher deve ter para ser “rodada”? Esse conceito não é desrespeitoso por si só, por vincular o valor de alguém a sua “quilometragem” sexual? Por que há tantos termos pejorativos para criticar a sexualidade feminina? Termos como vadia, puta, piranha, vagabunda só tem esse peso para mulheres. Qual é a finalidade disso? Se a sexualidade masculina não pode ser reprimida, por que a feminina o é?

5- O homem também sobre pressão sobre o modo de viver sua sexualidade.

Sim, o machismo é prejudicial a todos, não somente às mulheres. Apesar de o machismo ser uma ideologia que afirma a superioridade do homem em relação à mulher, os homens não estão livres da pressão social. A obrigação de ser pegador, provedor, forte, viril, calculista e de não demonstrar emoções é ainda muito forte. O homem que não “age como homem” tem sua masculinidade posta em dúvida. E claro, em uma sociedade heteronormativa, onde homossexuais são alvo de chacota e violência por serem homossexuais; ser chamado ou “confundido” com um homossexual é um insulto para a maioria.

Qual é a solução: continuar a discriminar homossexuais (obs.: texto ótimo sobre o tema no Abstraindo a Realidade, de Ramiro Catelan 🙂 ) e ridicularizar homens que não se encaixam no padrão viril, ou buscar meios de repensar a masculinidade e a posição do homem no mundo? Já é hora de abandonar essa ideologia que discrimina homens e mulheres por exercerem sua sexualidade livremente. Criticar uma Marcha que busca o questionamento dessa ideologia não vai mudar a situação dos homens. A Marcha das Vadias é impassível de críticas então? Nada é impassível de críticas, mas críticas incoerentes serão questionadas.

Por hoje é só, espero vocês na Marcha!

Marcha das Vadias – Porto Alegre. Dia 27/05 (Domingo). Às 13h, concentração no Arco da Redenção. 16h – Saída da Marcha.

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Polêmicas de domingo

O assunto mais popular de hoje é, sem dúvida, a entrevista da Xuxa no Fantástico. Não vou falar sobre o comportamento da Xuxa na entrevista, nem sobre o sensacionalismo do Fantástico, pois foram temas muito explorados em redes sociais e blogs, e eu não teria nada a acrescentar a essas críticas (algumas muito boas por sinal).

Vou comentar sobre dois pontos que mais me incomodaram nisso tudo, um bastante comentado, outro não.

1- As reações das pessoas ao relato de abuso sexual;

2- O julgamento pelo filme porno (sic) em que ela contracena com um menino de 12 anos.

Infelizmente, não estou surpresa com a quantidade de comentários maldosos e/ou moralistas a respeito da declaração da Xuxa sobre ter sofrido abuso sexual na infância. É comum desconfiar da vítima do abuso, ou de culpá-la por ter sido abusada.

Muitos criticaram a Xuxa por ter exposto a situação agora, com 49 anos, e que teria sido melhor ela ir ao analista. Deixando um pouco de lado o sensacionalismo da Globo, que está lucrando muito com essa entrevista, eu me pergunto: não se deve falar sobre o abuso sexual infantil na mídia? O que se critica tanto afinal, o sensacionalismo ou o abuso sexual como assunto em pauta?

Achar que o ideal é guardar situações de abuso sexual como segredos sujos, trancados a sete chaves para não mancharem a honra da vítima, é algo cabuloso para mim. É muito cômodo fingir que estupros só ocorrem com quem se submete, ou com quem “merece”. Essa falta de empatia com as vítimas contribui para o silêncio das mesmas, para a estigma de sujeira e desonra. Se toda vez que um caso de abuso surge na mídia a vítima for desmerecida pelas pessoas, que recado é passado para nós? Em caso de abuso, fiquem quietos para não serem julgados (leia-se, diminuídos/humilhados) pelo senso comum.

Ela demorou para contar? Não se lembra do primeiro abusador? Não se comportou como vítima de abuso? Isso não é motivo para desmerecer o testemunho de qualquer vítima, muito menos para julgá-la. Não há um padrão de comportamento para vítimas de estupro. Respeitem isso e tenham mais empatia, por favor.

Apesar do sensacionalismo, falar sobre abuso sexual é sempre positivo. É preciso sair da zona de conforto e pensar no que pode ser feito para evitar o abuso sexual. Individualmente não é preciso fazer muito não, basta ouvir e não duvidar de cara do que uma criança tem a te dizer, por exemplo. Oferecer um ombro amigo, mostrar apoio, não julgar.

 

Ok, sobre o tão falado “filme pornô” da Xuxa. Primeiramente, seria bom falar um pouco sobre a Pornochanchada, muito comum na década de 70 no Brasil. Pornochanchada é um tipo de filme erótico softcore, ou seja, não há cenas de sexo explícito.

Correção 24/05/12: o filme Amor, Estranho Amor não entra no gênero pornochanchada, é um filme com cenas eróticas apenas. De qualquer modo, não há sexo real entre os atores.

Todos amam falar da Xuxa, mas outros atores famosos participaram das pornochanchadas, embora neguem. Alguns nomes: Antônio Fagundes, Nuno Leal Maia, Ney Latorraca, Marília Pêra, Sônia Braga, Vera Fischer, etc.

O filme Amor, Estranho Amor (1982), contava com atores famosos, como Tarcísio Meira, Mauro Mendonça e Vera Fischer. Apesar de ter sido lançado em 1982, o filme foi filmado em 1979, quando Xuxa tinha 16 anos.

Além da cena erótica com Xuxa, o menino também fez uma cena erótica com Vera Fischer, que interpretava sua mãe. Disso ninguém fala, né? Também não falam que o menino fez uma pornochanchada antes, Eros, o Deus do Amor. Entrevista com ele aqui.

Eu sou veementemente contra filmes que erotizam crianças, e acho bom que hoje em dia tais filmes sejam vistos com estranhamento e espanto, mas acho de uma ignorância tremenda sair por aí dizendo que a Xuxa é pedófila. Ela também era menor de idade da época e foi erotizada, e os verdadeiros responsáveis são os idealizadores do filme, não é mesmo? Se a indignação geral fosse séria, não colocariam a culpa na Xuxa, mas sim em quem fez o filme.

Vale lembrar também que isso não aconteceu só aqui no Brasil. Sabem a Brooke Shields, de A Lagoa Azul? Sua carreira despontou com o filme Pretty Baby, em que ela interpreta a filha de uma prostituta que tem a virgindade leiloada com 12 anos de idade (mesma situação da personagem de Xuxa em Amor, Estranho Amor). O filme causou polêmica por mostrar uma menor  de idade nua.

Se preocupar com a erotização infantil vai muito além de chamar a Xuxa de pedófila, gente. Tó aí um site sobre o tema: Diga Não À Erotização Infantil.

Obs.: uma crítica realmente construtiva sobre a Xuxa em si, seria em relação a erotização promovida em seu programa infantil, por exemplo. Só não é tão apelativo quanto dizer que ela é pedófila…