Marcha contra a Mídia Machista – Porto Alegre

A Marcha contra a Mídia Machista aconteceu hoje em Porto Alegre e, apesar de não ter juntado tanta gente quanto a Marcha das Vadias, alcançou seu objetivo: chamar a atenção para o machismo em anúncios publicitários e matérias jornalísticas.

Vanessa e Aline, gurias legais que conheci na Marcha 😀

Às 16h saímos do Arco da Redenção em direção ao supermercado Zaffari, da Lima e Silva. Todos entramos no supermercado e passamos nossa mensagem através de cartazes, batucadas, panfletos (distribuídos pela organização da Marcha Mundial das Mulheres) e um discurso que foi interrompido pelo gerente do estabelecimento, mas que continuou assim que saímos.

Depois da Marcha, houve uma oficina de defesa pessoal para mulheres, mas eu não pude ficar. 😦

Além disso, recebemos um convite para participar do cine-debate sobre o filme Anjos do Sol, dia 6 de setembro, quinta–feira, às 19h, na sede do PSOL (Rua Vasco Alves, 206).

Eu fiz vários cartazes propagando o tumblr Jornalismo Punheteiro (e os distribui), que expõe o modo como as mulheres são tratadas na mídia, sendo objetificadas o tempo inteiro, como se a função básica de toda mulher fosse servir de objeto decorativo para deleite dos homens (afinal, vivemos em uma sociedade heteronormativa). O tumblr não é de minha autoria, mas achei de extrema importância divulgá-lo, pois mostra a seriedade do problema, que não é somente uma “frescura” de “feminazis”, como muitos gostam de repetir.

Eu na Marcha

Anúncios

O que está havendo com os publicitários?

Primeiro, a propaganda da Prudence; depois, a da Nova Schin, e agora a Marisa. Não que propaganda machista já não existisse antes, mas esses foram os casos de maior repercussão na internet recentemente (ano passado a propaganda Mulheres Evoluídas, da Bombril deu o que falar também), mas eu fico cada vez mais decepcionada com esses publicitários (leia-se: não com todos os publicitários, óbvio, mas com os que fazem tais propagandas wtf). Além de não terem imaginação e vomitarem clichê atrás de clichê a cada 10 minutos, eles demonstram total falta de sintonia com o público crítico, dizem que não se deve levar nada a sério, que é só piadinha e o escambau.

Usar humor como desculpa, aliás, é outro clichê supostamente liberal da atualidade. Certos humoristas vivem repetindo isso para parecerem transgressores. Fala-se em liberdade de expressão (ou seria liberdade de insulto?) e na defesa do humor ofensivo, onde “se você não quer ser insultado, não assista stand ups”. A incoerência é que usam essa fala para calar seus críticos, ou seja, liberdade de expressão é bom, pero no mucho, né?

Resolvi escrever este post após ler uma carta da redatora da AlmapBBDO, Sophie Schoenburg, em resposta às críticas a nova propaganda da Marisa. A carta pode ser lida aqui.

Não vou comentar sobre a carta em si, tendo em vista que as gurias do tumblr Machismo Chato de Cada Dia (link acima) fizeram com maestria. Não tenho o que acrescentar aos cutucos delas. Minha crítica é mais geral.

A moda agora é ser politicamente incorreto, mas de uma forma regrada, uniforme, engessada. Ser politicamente incorreto virou um estilo de vida para os wannabe cool. Sabe aquelas pessoas que assistiram House em algum momento de suas vidas e decidiram segui-lo como uma espécie de guru espiritual? Pois é, a coisa está nessa linha. A modinha do politicamente incorreto nada mais é do que querer ser como o Dr. House, soltando opiniões ácidas na cara das pessoas, doa a quem doer! Uhuul! Mãe, sou rebelde agora!

O problema é: para ser politicamente incorreto (de verdade), você precisa (1) ter algo para criticar, (2) saber como criticar, usando o contexto ao seu favor (3) para surpreender as pessoas e (4) ser transgressor. Usar humor para reforçar preconceitos da sociedade não é ser politicamente incorreto. Quem reforça preconceitos não está sendo transgressor, pois usa seu discurso para manter as coisas como elas estão, não acrescentam nada novo. Além disso, reforçar preconceitos é justamente o oposto de criticá-los! Quem faz isso e enche a boca para dizer que está sendo politicamente incorreto está é falando uma asneira das grandes! É por isso que a “cartilha do politicamente incorreto” é uma das coisas mais ridículas que eu já vi.

Monty Python rindo dessa gente

Outro problema que parece atingir as peças publicitárias é a falta de criatividade. Pelamor, quem já viu uma propaganda de cerveja viu todas! Quem viu uma propaganda para desodorante já viu todas! É muito cômodo pegar estereótipos largamente manjados e retocar com a pitada “politicamente incorreta” para parecer algo novo. Não somos nós que não entendemos o humor, são vocês que não sabem como fazer humor!

Ah, e não esqueçam! Tem Marcha contra a mídia machista amanhã!

O Ativismo Poser da Femen Br

A Femen, movimento feminista ucraniano que surgiu em 2008, chama bastante atenção da mídia para seus protestos (geralmente contra a exploração e o turismo sexual) por um simples fato: fazem topless. O problema não é esse, já que, dentro de um contexto, mostrar os seios representa uma quebra de paradigmas machistas, onde a mulher afirma que seu corpo é somente seu, e não serve apenas para deleite masculino.

O que eu acho problemático é elas mostrarem o corpo com o objetivo de chamar a atenção da mídia somente. Do que adianta mostrar o corpo para destacar o movimento se a mensagem fica em segundo plano? Do que adianta um protesto sem uma crítica consistente? De que adianta criticar o machismo, se as manifestantes estão todas dentro do padrão de beleza vigente? Um pouco de coerência não faz mal.

Enfim, eu já não sentia firmeza no Femen da Ucrânia, e agora que o movimento veio para o Brasil, minha descrença e vergonha alheia aumentaram consideravelmente.

Sara Winter, porta-voz da Femen no país, foi à Ucrânia para aprender o modus operandi das ativistas de lá e trazer o movimento para terras tupiniquins. Sua viagem foi registrada pela mídia brasileira e a piá (tem 20 anos como eu) parecia estar bem deslocada nas entrevistas. Declarou ser neofeminista, mas nunca explicou o que ela entende sobre feminismo. Vive falando sobre ativismo e lutas, mas não deixou clara a pauta da Femen Br (protesto contra a pirataria de livros wtf?), e não soube explicar o contexto dos questionamentos feministas (vide entrevista com o Danilo Gentili).

E o pior nem é isso, é saber que em um passado não tão distante (até o ano passado) ela simpatizava com ideologias neonazistas. Em um blog (le cult rats), ela dizia ser da direita nacionalista e criticou a Marcha das Vadias, pois achava que mostrar os seios em protestos era querer ibope, e que as meninas tinham que se dar o respeito. Bem, as pessoas crescem, refletem e eventualmente mudam de opinião ao longo da vida, né? O problema é que eu acho muito difícil que uma pessoa que mudou tão drasticamente de ideologia em menos de um ano esteja pronta para ser porta-voz de um movimento “neofeminista”.

Desde essa descoberta (a internet, como sempre, mostrando o passado da galerë), a página da Femen Br no facebook recebeu vários questionamentos, críticas e tirações de onda (afinal, É a internet :P). A reação das ativistas me lembrou as justificativas furadas que empresas dão quando os consumidores criticam seus produtos ou peças publicitárias: negam até a morte que algo esteja errado, e quando veem que não dá para abafar o caso, rola um mea culpa meia boca e inconclusivo.

Trecho: “O Femen vem através desta mensagem reconhecer os erros de comunicação e o despreparo de alguns integrantes, principalmente aqui no facebook.
Nós perdemos o foco da luta e da missão ao entrarmos e comentarmos discussões desnecessárias.
A grande repercussão do Femen nos últimos dias, nos forçou a rever nossos conceitos que eram baseados na realidade ucraniana. Hoje, após algumas ações, percebemos que a realidade brasileira é outra e devemos adaptar o movimento. Por isso, desde já estamos estudando uma estratégia de comunicação e ação distintas das utilizadas até o momento. Isso inclui as linhas de pensamento e lutas sociais também.

Definimos como nossa missão: Chamar a atenção da população para problemas negligenciados pelos órgão responsáveis. E aqueles que não acreditam no Femen como um movimento sério, somente o tempo dirá.”

Ah, atentem para o absurdo de se declararem “apolíticas”. Como pode um ativismo ser apolítico, me expliquem!

Se bem que, alguns conseguem a proeza de defender que ativismo não tenha base alguma…

Como, meu god, podemos confiar em um grupo que não sabe dizer a que veio? As ativistas da Femen Br precisam ter alguma base primeiro, algo que dê suporte ao movimento. Não adianta dizer que lutam, que protestam, mas sim sobre O QUÊ lutam e protestam.

Atualização: acabei de ver a Twitcam da Sara Winter e não acho que ela estava mentindo. Ela confirmou que participou de grupos integralistas e fascistas apenas na internet (tem gente dizendo que não, que ela frequentava a cena dos “carecas” e tal). Disse que mudou radicalmente de opinião de um ano pra cá, e que hoje se considera neofeminista.  Também pediu desculpas a todas que participaram das Marchas das Vadias no mundo, pelas declarações feitas em seu blog em 2011.

Perguntei sobre o neofeminismo, mas não entendi muito bem a resposta. Ela disse que a proposta era o topless, manifestar-se mostrando o corpo, lutar contra todo o tipo de patriarcado e opressão. Ok, só não entendi no que isso é diferente do feminismo.

Sobre as propostas da Femen: ainda estão em construção. Ela admite que há muito o que pesquisar e discutir antes de se firmar como um grupo. Disse que disponibilizarão textos para que nós saibamos de fato o que ficar decidido, e que será feita uma Twitcam por semana, para que mais perguntas sejam respondidas. Ela também disse que, como o contexto do Brasil é diferente, elas vão estudar melhores formas de se posicionar.

Sobre o protesto contra a pirataria de livros: Sara disse que Bruna (outra ativista da Femen) resolveu participar sozinha do protesto, sem representar o grupo. Se foi este o caso, elas deveriam ter tomado maior cuidado para que as causas não fossem misturadas como foram.

Sobre o processo de seleção: as interessadas devem preencher um formulário, para definir o perfil político e ideológico, e também devem mostrar que aguentam a pressão e as críticas por se exporem seminuas. Ela disse que as ativistas não são escolhidas pela característica física.

Enfim, fiz um resumão sobre o essencial, teve muita repetição e muita resposta nada a ver (como falar sobre a ratinha morta, ou sobre o ex-namorado), mas de interessante mesmo foi isso. Continuo questionando sobre sua capacidade de ser a porta-voz de um grupo neofeminista (seja lá o que isso for), já que suas opiniões mudaram radicalmente em um curto espaço de tempo, e não estão maduras o suficiente para que ela sirva de base a um movimento de peso. O questionamento continua o mesmo em relação ao posicionamento ideológico, mas como ela está conhecendo o feminismo agora, pode ser que ela seja mais firme e convicta daqui a algum tempo, quando estiver mais familiarizada.

Marcha das Vadias 2012 – Porto Alegre

A Marcha de Poa foi simplesmente contagiante! Muita gente apareceu (embora menos do que o esperado, o que é normal) e todos estavam na mesma sintonia. O caráter feminista da Marcha foi inquestionável e felizmente não houve tumultos. O pessoal tirava fotos sem parar e os que não gostavam faziam uma cara feia, no mínimo. A maioria recepcionou a Marcha com alegria e curiosidade.

Agora, as fotos:

Preparação da faixa principal

Marcha em andamento.
Site: G1

Frases deste ano

Acontecimentos recentes

Participação dos homens

Respeito

Andresa, foi muito legal te conhecer na Marcha!

Eu na Marcha

O machismo também prejudica os homens (Ramiro – amigo do peito – e Gabriel)

Marcha Mundial das Mulheres

Gente do Testosterona e blogs afins, é válido querer diminuir um movimento contra a violência sexual à mulher por erros de ortografia em um cartaz?

Por Que Marcha das Vadias?

Com a proximidade do evento, muitos tem se perguntado o porquê do nome da Marcha. Neste texto, juntarei links de posts sobre a Marcha, para apresentá-la de modo geral.

A Marcha começou no Canadá, após um policial afirmar, em uma universidade, que as mulheres deveriam parar de se vestir como vadias, a fim de evitar estupros. Chamada de SlutWalk, o objetivo da marcha é o de reapropriar o termo “vadia” (slut), e de mostrar que o modo como uma mulher vive sua sexualidade não deve ser visto como justificativa para crimes.

A SlutWalk gerou uma reação em cadeia, e várias Marchas foram feitas em diversas cidades do mundo. A tendência é que a Marcha se espalhe cada vez mais. Cabe a nós mudarmos conceitos nocivos às mulheres, como a objetificação sexual. Se engana quem acredita que a Marcha das Vadias defenda e/ou promova a objetificação da mulher.

A objetificação, é sempre bom lembrar, é a desumanização da mulher, ou seja, a mulher vista como uma coisa genérica, sem personalidade própria, vontades e sentimentos. Se não conseguimos reconhecer um grupo como seres humanos, não há empatia, e a violência contra tal grupo torna-se menos grave, ou até justificável.

Textos excelentes sobre a Marcha:

Marcha das Vadias – Revista TPM

A Marcha das Vadias e a mercantilização do corpo e vida das mulheres – SOF

Viva a Marcha das Vadias! Já a reação a ela… – Escreva Lola Escreva

Oito ideias para entender a Marcha das Vadias – Revista Parafuso

Inevitável é, ao falar sobre a Marcha, esclarecer algumas críticas infundadas. Vamos a elas:

1- É uma manifestação anti-homem. Coloca as mulheres como vítimas e homens como algozes.

Não, não é uma manifestação anti-homem, muito menos uma declaração de ódio aos homens, ou a visão de que todos os homens são estupradores em potencial. O foco da Marcha simplesmente não está nos homens. Isso quer dizer que eles estão proibidos de participar? Evidentemente que não. Todos são bem-vindos e é inclusive importante que homens estejam na Marcha, a preocupação com a violência sexual não é um assunto somente feminino. Mas os homens não são vistos como algozes da objetificação feminina? Não, não há um único responsável pela objetificação, que resulta do machismo. Machismo não é um comportamento intrinsecamente masculino. Há pessoas (homens E mulheres) machistas, creio que em igual proporção. Não vemos homens como vilões, e o mundo não é simplista, não há a luta do bem contra o mal aqui. O lema é a conscientização de todos.

2- As mulheres querem viver irresponsavelmente. Todos nós temos que assumir a responsabilidade por nossos atos. Se eu andar pela rua com dinheiro nas mãos, ou com um relógio caro à vista, não posso reclamar se for assaltado. Do mesmo modo, uma mulher que anda na rua com pouca roupa chama a atenção do estuprador.

Eu não gosto quando comparam estupros a furtos ou roubos, e é uma comparação infelizmente muito comum. Primeiramente, porque não se pode comparar a dignidade sexual de alguém com um bem patrimonial/financeiro; o ser com o ter. Depois, porque esse tipo de raciocínio é muito subjetivo. O que é considerado provocativo? O que acho perigoso é a defesa que alguns fazem ao cerceamento de liberdade de ir e vir das mulheres. Se andar na rua deixa a mulher vulnerável a abusos, e tais abusos são considerados naturais (vide as “cantadas”, ou a passada de mão), e é dever único e exclusivo das mulheres evitar tais abusos, qual é a solução? Ficar em casa (não trabalhar/estudar/sair)?

O abuso sexual é um medo constante das mulheres. Acontece que não há uma cartilha de como ocorre o estupro, não há como prever que alguém é um estuprador. Concordo que todos devem ter cautela, mas o cerceamento da nossa liberdade de ir e vir não faz parte disso. Além disso, a maioria dos estupros ocorrem dentro de casa, e por pessoas conhecidas. Como a roupa influencia nesses casos?

3- A Marcha das Vadias é um incentivo à promiscuidade e ao sexo irresponsável.

Não, a Marcha não promove o sexo irresponsável. A Marcha promove a liberdade sexual da mulher. O que isso significa? Significa que a mulher não deve ser desrespeitada por ter desejo sexual, assim como o homem heterossexual não é. Se a mulher gosta de sexo, se ela teve mais de um parceiro sexual, se ela faz sexo casual, adivinhe só: isso não dá a ninguém o direito de desrespeitar essa mulher; de xingá-la e humilhá-la. Assim como ninguém tem o direito de fazer isso com um homem. Ter desejo sexual e gostar de sexo não é moralmente condenável.

4- Querem obrigar o homem a ficar/namorar/casar com uma mulher “rodada”.

É óbvio que ninguém deva ser obrigado a se relacionar com alguém (vide friendzone). Se não há compatibilidade, parte pra outra e pronto. Não há necessidade de desrespeitar, de xingar. Isso é tão difícil de entender? Uma curiosidade: quantos parceiros sexuais uma mulher deve ter para ser “rodada”? Esse conceito não é desrespeitoso por si só, por vincular o valor de alguém a sua “quilometragem” sexual? Por que há tantos termos pejorativos para criticar a sexualidade feminina? Termos como vadia, puta, piranha, vagabunda só tem esse peso para mulheres. Qual é a finalidade disso? Se a sexualidade masculina não pode ser reprimida, por que a feminina o é?

5- O homem também sobre pressão sobre o modo de viver sua sexualidade.

Sim, o machismo é prejudicial a todos, não somente às mulheres. Apesar de o machismo ser uma ideologia que afirma a superioridade do homem em relação à mulher, os homens não estão livres da pressão social. A obrigação de ser pegador, provedor, forte, viril, calculista e de não demonstrar emoções é ainda muito forte. O homem que não “age como homem” tem sua masculinidade posta em dúvida. E claro, em uma sociedade heteronormativa, onde homossexuais são alvo de chacota e violência por serem homossexuais; ser chamado ou “confundido” com um homossexual é um insulto para a maioria.

Qual é a solução: continuar a discriminar homossexuais (obs.: texto ótimo sobre o tema no Abstraindo a Realidade, de Ramiro Catelan 🙂 ) e ridicularizar homens que não se encaixam no padrão viril, ou buscar meios de repensar a masculinidade e a posição do homem no mundo? Já é hora de abandonar essa ideologia que discrimina homens e mulheres por exercerem sua sexualidade livremente. Criticar uma Marcha que busca o questionamento dessa ideologia não vai mudar a situação dos homens. A Marcha das Vadias é impassível de críticas então? Nada é impassível de críticas, mas críticas incoerentes serão questionadas.

Por hoje é só, espero vocês na Marcha!

Marcha das Vadias – Porto Alegre. Dia 27/05 (Domingo). Às 13h, concentração no Arco da Redenção. 16h – Saída da Marcha.

TumblrFacebookBlog da Marcha NacionalFacebook Marcha Nacional

Polêmicas de domingo

O assunto mais popular de hoje é, sem dúvida, a entrevista da Xuxa no Fantástico. Não vou falar sobre o comportamento da Xuxa na entrevista, nem sobre o sensacionalismo do Fantástico, pois foram temas muito explorados em redes sociais e blogs, e eu não teria nada a acrescentar a essas críticas (algumas muito boas por sinal).

Vou comentar sobre dois pontos que mais me incomodaram nisso tudo, um bastante comentado, outro não.

1- As reações das pessoas ao relato de abuso sexual;

2- O julgamento pelo filme porno (sic) em que ela contracena com um menino de 12 anos.

Infelizmente, não estou surpresa com a quantidade de comentários maldosos e/ou moralistas a respeito da declaração da Xuxa sobre ter sofrido abuso sexual na infância. É comum desconfiar da vítima do abuso, ou de culpá-la por ter sido abusada.

Muitos criticaram a Xuxa por ter exposto a situação agora, com 49 anos, e que teria sido melhor ela ir ao analista. Deixando um pouco de lado o sensacionalismo da Globo, que está lucrando muito com essa entrevista, eu me pergunto: não se deve falar sobre o abuso sexual infantil na mídia? O que se critica tanto afinal, o sensacionalismo ou o abuso sexual como assunto em pauta?

Achar que o ideal é guardar situações de abuso sexual como segredos sujos, trancados a sete chaves para não mancharem a honra da vítima, é algo cabuloso para mim. É muito cômodo fingir que estupros só ocorrem com quem se submete, ou com quem “merece”. Essa falta de empatia com as vítimas contribui para o silêncio das mesmas, para a estigma de sujeira e desonra. Se toda vez que um caso de abuso surge na mídia a vítima for desmerecida pelas pessoas, que recado é passado para nós? Em caso de abuso, fiquem quietos para não serem julgados (leia-se, diminuídos/humilhados) pelo senso comum.

Ela demorou para contar? Não se lembra do primeiro abusador? Não se comportou como vítima de abuso? Isso não é motivo para desmerecer o testemunho de qualquer vítima, muito menos para julgá-la. Não há um padrão de comportamento para vítimas de estupro. Respeitem isso e tenham mais empatia, por favor.

Apesar do sensacionalismo, falar sobre abuso sexual é sempre positivo. É preciso sair da zona de conforto e pensar no que pode ser feito para evitar o abuso sexual. Individualmente não é preciso fazer muito não, basta ouvir e não duvidar de cara do que uma criança tem a te dizer, por exemplo. Oferecer um ombro amigo, mostrar apoio, não julgar.

 

Ok, sobre o tão falado “filme pornô” da Xuxa. Primeiramente, seria bom falar um pouco sobre a Pornochanchada, muito comum na década de 70 no Brasil. Pornochanchada é um tipo de filme erótico softcore, ou seja, não há cenas de sexo explícito.

Correção 24/05/12: o filme Amor, Estranho Amor não entra no gênero pornochanchada, é um filme com cenas eróticas apenas. De qualquer modo, não há sexo real entre os atores.

Todos amam falar da Xuxa, mas outros atores famosos participaram das pornochanchadas, embora neguem. Alguns nomes: Antônio Fagundes, Nuno Leal Maia, Ney Latorraca, Marília Pêra, Sônia Braga, Vera Fischer, etc.

O filme Amor, Estranho Amor (1982), contava com atores famosos, como Tarcísio Meira, Mauro Mendonça e Vera Fischer. Apesar de ter sido lançado em 1982, o filme foi filmado em 1979, quando Xuxa tinha 16 anos.

Além da cena erótica com Xuxa, o menino também fez uma cena erótica com Vera Fischer, que interpretava sua mãe. Disso ninguém fala, né? Também não falam que o menino fez uma pornochanchada antes, Eros, o Deus do Amor. Entrevista com ele aqui.

Eu sou veementemente contra filmes que erotizam crianças, e acho bom que hoje em dia tais filmes sejam vistos com estranhamento e espanto, mas acho de uma ignorância tremenda sair por aí dizendo que a Xuxa é pedófila. Ela também era menor de idade da época e foi erotizada, e os verdadeiros responsáveis são os idealizadores do filme, não é mesmo? Se a indignação geral fosse séria, não colocariam a culpa na Xuxa, mas sim em quem fez o filme.

Vale lembrar também que isso não aconteceu só aqui no Brasil. Sabem a Brooke Shields, de A Lagoa Azul? Sua carreira despontou com o filme Pretty Baby, em que ela interpreta a filha de uma prostituta que tem a virgindade leiloada com 12 anos de idade (mesma situação da personagem de Xuxa em Amor, Estranho Amor). O filme causou polêmica por mostrar uma menor  de idade nua.

Se preocupar com a erotização infantil vai muito além de chamar a Xuxa de pedófila, gente. Tó aí um site sobre o tema: Diga Não À Erotização Infantil.

Obs.: uma crítica realmente construtiva sobre a Xuxa em si, seria em relação a erotização promovida em seu programa infantil, por exemplo. Só não é tão apelativo quanto dizer que ela é pedófila…

 

 

Blogagem Coletiva: estupros como presente em Queimadas – PB

Post para a Blogagem Coletiva iniciada pelo Luluzinha CampBlogueiras Feministas.

Portal Belmonte Notícias

Como muitos, fiquei sabendo desses crimes absurdos através de blogs e artigos na internet (aqui, aqui, aqui e aqui, pra começar). Apesar de saber que vivemos em uma sociedade machista, que naturaliza o estupro, nunca deixarei de me chocar com crimes tão cruéis como esse, eu não quero acreditar que 10 homens normais (nada de tarados psicopatas desconhecidos em becos escuros), amigos e familiares das vítimas, se sentiram tão merecedores de seus corpos que planejaram os estupros como “presente” de aniversário. Não quero acreditar que as mulheres são vistas assim, como meros objetos sexuais, sem vontades, sem sentimentos. Eram todos psicopatas? Marginais? Anormais? Eram homens comuns, com família, emprego, amigos, etc. Não quero MESMO acreditar que seja assim tão fácil reunir 10 homens para estuprar e matar mulheres. Infelizmente é a realidade, não podemos ignorá-la.

Essa dificuldade em reconhecer mulheres como seres humanos complexos não é coisa de uns poucos criminosos, é de uma sociedade inteira. Somos educadas a nos inferiorizar, e homens são educados para nos inferiorizar também. A palavra “mulherzinha” é um xingamento para quem é fresco, fraco, ou faz coisas consideradas femininas, como cuidar da casa, cozinhar, se arrumar, ou, simplesmente, chorar. Ser mulher é tão humilhante assim para virar xingamento?

Vamos analisar os papéis de gênero. Meninas e meninos são divididos desde cedo, a interação não é encorajada. Os brinquedos voltados para meninas são delicados, meigos, cor-de-rosa. Aprendemos a cozinhar, a cuidar da casa, dos bebês, a valorizar a amizade e a família, a sonhar com contos-de-fada e romances. Devemos ser dóceis e quietas, submissas. Com os garotos é bem diferente. Eles são encorajados a correr, se aventurar, ganham brinquedos violentos e animados. Para eles, nem o céu é o limite, e valores como coragem, bravura, força e dominação lhe são ensinados desde pequenos.  Basicamente: mulheres são criadas para dar carinho e cuidar, enquanto homens, para lutar e dominar. É saudável educar metade da população para a passividade e outra para a agressividade? Separar crianças por gênero dificulta a empatia um pelo outro.

A segregação continua na adolescência. Uma enxurrada de livros e revistas teen surgem com mil e uma explicações sobre como se aproximar do sexo oposto (se a garotada brincasse junta, tais dicas não seriam necessárias). As diferenças ficam mais aparentes (e a mídia adora explorar isso). Começa aquela baboseira toda de “mulheres são de Vênus e homens são de Marte” (deusa do amor e deus da guerra, respectivamente). TCHARAM!! Viramos seres de outra espécie.

 

O “universo feminino” é taxado de fútil, superficial e volúvel. Mulheres são infantilizadas, estéricas e frescas (Sex and the City não me deixa mentir, nem Meninas Malvadas). Tudo o que é feminino é menosprezado pelos homens (e até por nós mesmas!), é menos importante, frescura.

Não termina por aí, também somos objetificadas no clube do bolinha. Comerciais de cerveja são um bom exemplo de como a mulher é vendida ao homem. Um brinquedo/serva sexual, pronta para satisfazer qualquer sede do homem. São mulheres sem vontade própria, sua sexualidade é apenas voltada ao homem, nunca ao prazer próprio.

Até em filmes há uma dificuldade em representar mulheres como seres humanos comuns, e o Bechdel Test analisa isso. É um teste simples: o filme deve conter (1) duas ou mais personagens mulheres que tenham nomes(2) que falam uma com a outra (3) sobre qualquer coisa, menos homens. Se o filme passar no teste, ele representa mulheres como seres humanos, e é incrível como muitos não passam. Mais informações sobre o teste aqui.

Não enxergar a mulher como pessoa é o cerne da cultura de estupro. Quem tenta justificar um estupro, ou culpar a mulher estuprada, não a reconhece como semelhante, como sujeito.  Cultura de estupro é dizer que homens não controlam seus impulsos sexuais, é ensinar meninas e mulheres a não serem estupradas e a responsabilizá-las pelo estupro sofrido. A cultura de estupro pode aparecer através de piadas, ou de estupros coletivos como presente de aniversário.

Obs.: (1) Não, eu não disse que todos os homens são estupradores/maus, critico a ideologia machista (2) tampouco nego que outros grupos de pessoas sejam estereotipados e marginalizados na sociedade (3) o fato de eu apresentar esse problema não quer dizer que negue, ou não me importe, com outros tipos de discriminação. Digo isso porque sempre aparece um zé mané pra falar essas besteiras quando alguém questiona e critica o machismo.