Marcha contra a Mídia Machista – Porto Alegre

A Marcha contra a Mídia Machista aconteceu hoje em Porto Alegre e, apesar de não ter juntado tanta gente quanto a Marcha das Vadias, alcançou seu objetivo: chamar a atenção para o machismo em anúncios publicitários e matérias jornalísticas.

Vanessa e Aline, gurias legais que conheci na Marcha 😀

Às 16h saímos do Arco da Redenção em direção ao supermercado Zaffari, da Lima e Silva. Todos entramos no supermercado e passamos nossa mensagem através de cartazes, batucadas, panfletos (distribuídos pela organização da Marcha Mundial das Mulheres) e um discurso que foi interrompido pelo gerente do estabelecimento, mas que continuou assim que saímos.

Depois da Marcha, houve uma oficina de defesa pessoal para mulheres, mas eu não pude ficar. 😦

Além disso, recebemos um convite para participar do cine-debate sobre o filme Anjos do Sol, dia 6 de setembro, quinta–feira, às 19h, na sede do PSOL (Rua Vasco Alves, 206).

Eu fiz vários cartazes propagando o tumblr Jornalismo Punheteiro (e os distribui), que expõe o modo como as mulheres são tratadas na mídia, sendo objetificadas o tempo inteiro, como se a função básica de toda mulher fosse servir de objeto decorativo para deleite dos homens (afinal, vivemos em uma sociedade heteronormativa). O tumblr não é de minha autoria, mas achei de extrema importância divulgá-lo, pois mostra a seriedade do problema, que não é somente uma “frescura” de “feminazis”, como muitos gostam de repetir.

Eu na Marcha

O Ativismo Poser da Femen Br

A Femen, movimento feminista ucraniano que surgiu em 2008, chama bastante atenção da mídia para seus protestos (geralmente contra a exploração e o turismo sexual) por um simples fato: fazem topless. O problema não é esse, já que, dentro de um contexto, mostrar os seios representa uma quebra de paradigmas machistas, onde a mulher afirma que seu corpo é somente seu, e não serve apenas para deleite masculino.

O que eu acho problemático é elas mostrarem o corpo com o objetivo de chamar a atenção da mídia somente. Do que adianta mostrar o corpo para destacar o movimento se a mensagem fica em segundo plano? Do que adianta um protesto sem uma crítica consistente? De que adianta criticar o machismo, se as manifestantes estão todas dentro do padrão de beleza vigente? Um pouco de coerência não faz mal.

Enfim, eu já não sentia firmeza no Femen da Ucrânia, e agora que o movimento veio para o Brasil, minha descrença e vergonha alheia aumentaram consideravelmente.

Sara Winter, porta-voz da Femen no país, foi à Ucrânia para aprender o modus operandi das ativistas de lá e trazer o movimento para terras tupiniquins. Sua viagem foi registrada pela mídia brasileira e a piá (tem 20 anos como eu) parecia estar bem deslocada nas entrevistas. Declarou ser neofeminista, mas nunca explicou o que ela entende sobre feminismo. Vive falando sobre ativismo e lutas, mas não deixou clara a pauta da Femen Br (protesto contra a pirataria de livros wtf?), e não soube explicar o contexto dos questionamentos feministas (vide entrevista com o Danilo Gentili).

E o pior nem é isso, é saber que em um passado não tão distante (até o ano passado) ela simpatizava com ideologias neonazistas. Em um blog (le cult rats), ela dizia ser da direita nacionalista e criticou a Marcha das Vadias, pois achava que mostrar os seios em protestos era querer ibope, e que as meninas tinham que se dar o respeito. Bem, as pessoas crescem, refletem e eventualmente mudam de opinião ao longo da vida, né? O problema é que eu acho muito difícil que uma pessoa que mudou tão drasticamente de ideologia em menos de um ano esteja pronta para ser porta-voz de um movimento “neofeminista”.

Desde essa descoberta (a internet, como sempre, mostrando o passado da galerë), a página da Femen Br no facebook recebeu vários questionamentos, críticas e tirações de onda (afinal, É a internet :P). A reação das ativistas me lembrou as justificativas furadas que empresas dão quando os consumidores criticam seus produtos ou peças publicitárias: negam até a morte que algo esteja errado, e quando veem que não dá para abafar o caso, rola um mea culpa meia boca e inconclusivo.

Trecho: “O Femen vem através desta mensagem reconhecer os erros de comunicação e o despreparo de alguns integrantes, principalmente aqui no facebook.
Nós perdemos o foco da luta e da missão ao entrarmos e comentarmos discussões desnecessárias.
A grande repercussão do Femen nos últimos dias, nos forçou a rever nossos conceitos que eram baseados na realidade ucraniana. Hoje, após algumas ações, percebemos que a realidade brasileira é outra e devemos adaptar o movimento. Por isso, desde já estamos estudando uma estratégia de comunicação e ação distintas das utilizadas até o momento. Isso inclui as linhas de pensamento e lutas sociais também.

Definimos como nossa missão: Chamar a atenção da população para problemas negligenciados pelos órgão responsáveis. E aqueles que não acreditam no Femen como um movimento sério, somente o tempo dirá.”

Ah, atentem para o absurdo de se declararem “apolíticas”. Como pode um ativismo ser apolítico, me expliquem!

Se bem que, alguns conseguem a proeza de defender que ativismo não tenha base alguma…

Como, meu god, podemos confiar em um grupo que não sabe dizer a que veio? As ativistas da Femen Br precisam ter alguma base primeiro, algo que dê suporte ao movimento. Não adianta dizer que lutam, que protestam, mas sim sobre O QUÊ lutam e protestam.

Atualização: acabei de ver a Twitcam da Sara Winter e não acho que ela estava mentindo. Ela confirmou que participou de grupos integralistas e fascistas apenas na internet (tem gente dizendo que não, que ela frequentava a cena dos “carecas” e tal). Disse que mudou radicalmente de opinião de um ano pra cá, e que hoje se considera neofeminista.  Também pediu desculpas a todas que participaram das Marchas das Vadias no mundo, pelas declarações feitas em seu blog em 2011.

Perguntei sobre o neofeminismo, mas não entendi muito bem a resposta. Ela disse que a proposta era o topless, manifestar-se mostrando o corpo, lutar contra todo o tipo de patriarcado e opressão. Ok, só não entendi no que isso é diferente do feminismo.

Sobre as propostas da Femen: ainda estão em construção. Ela admite que há muito o que pesquisar e discutir antes de se firmar como um grupo. Disse que disponibilizarão textos para que nós saibamos de fato o que ficar decidido, e que será feita uma Twitcam por semana, para que mais perguntas sejam respondidas. Ela também disse que, como o contexto do Brasil é diferente, elas vão estudar melhores formas de se posicionar.

Sobre o protesto contra a pirataria de livros: Sara disse que Bruna (outra ativista da Femen) resolveu participar sozinha do protesto, sem representar o grupo. Se foi este o caso, elas deveriam ter tomado maior cuidado para que as causas não fossem misturadas como foram.

Sobre o processo de seleção: as interessadas devem preencher um formulário, para definir o perfil político e ideológico, e também devem mostrar que aguentam a pressão e as críticas por se exporem seminuas. Ela disse que as ativistas não são escolhidas pela característica física.

Enfim, fiz um resumão sobre o essencial, teve muita repetição e muita resposta nada a ver (como falar sobre a ratinha morta, ou sobre o ex-namorado), mas de interessante mesmo foi isso. Continuo questionando sobre sua capacidade de ser a porta-voz de um grupo neofeminista (seja lá o que isso for), já que suas opiniões mudaram radicalmente em um curto espaço de tempo, e não estão maduras o suficiente para que ela sirva de base a um movimento de peso. O questionamento continua o mesmo em relação ao posicionamento ideológico, mas como ela está conhecendo o feminismo agora, pode ser que ela seja mais firme e convicta daqui a algum tempo, quando estiver mais familiarizada.

Por Que Marcha das Vadias?

Com a proximidade do evento, muitos tem se perguntado o porquê do nome da Marcha. Neste texto, juntarei links de posts sobre a Marcha, para apresentá-la de modo geral.

A Marcha começou no Canadá, após um policial afirmar, em uma universidade, que as mulheres deveriam parar de se vestir como vadias, a fim de evitar estupros. Chamada de SlutWalk, o objetivo da marcha é o de reapropriar o termo “vadia” (slut), e de mostrar que o modo como uma mulher vive sua sexualidade não deve ser visto como justificativa para crimes.

A SlutWalk gerou uma reação em cadeia, e várias Marchas foram feitas em diversas cidades do mundo. A tendência é que a Marcha se espalhe cada vez mais. Cabe a nós mudarmos conceitos nocivos às mulheres, como a objetificação sexual. Se engana quem acredita que a Marcha das Vadias defenda e/ou promova a objetificação da mulher.

A objetificação, é sempre bom lembrar, é a desumanização da mulher, ou seja, a mulher vista como uma coisa genérica, sem personalidade própria, vontades e sentimentos. Se não conseguimos reconhecer um grupo como seres humanos, não há empatia, e a violência contra tal grupo torna-se menos grave, ou até justificável.

Textos excelentes sobre a Marcha:

Marcha das Vadias – Revista TPM

A Marcha das Vadias e a mercantilização do corpo e vida das mulheres – SOF

Viva a Marcha das Vadias! Já a reação a ela… – Escreva Lola Escreva

Oito ideias para entender a Marcha das Vadias – Revista Parafuso

Inevitável é, ao falar sobre a Marcha, esclarecer algumas críticas infundadas. Vamos a elas:

1- É uma manifestação anti-homem. Coloca as mulheres como vítimas e homens como algozes.

Não, não é uma manifestação anti-homem, muito menos uma declaração de ódio aos homens, ou a visão de que todos os homens são estupradores em potencial. O foco da Marcha simplesmente não está nos homens. Isso quer dizer que eles estão proibidos de participar? Evidentemente que não. Todos são bem-vindos e é inclusive importante que homens estejam na Marcha, a preocupação com a violência sexual não é um assunto somente feminino. Mas os homens não são vistos como algozes da objetificação feminina? Não, não há um único responsável pela objetificação, que resulta do machismo. Machismo não é um comportamento intrinsecamente masculino. Há pessoas (homens E mulheres) machistas, creio que em igual proporção. Não vemos homens como vilões, e o mundo não é simplista, não há a luta do bem contra o mal aqui. O lema é a conscientização de todos.

2- As mulheres querem viver irresponsavelmente. Todos nós temos que assumir a responsabilidade por nossos atos. Se eu andar pela rua com dinheiro nas mãos, ou com um relógio caro à vista, não posso reclamar se for assaltado. Do mesmo modo, uma mulher que anda na rua com pouca roupa chama a atenção do estuprador.

Eu não gosto quando comparam estupros a furtos ou roubos, e é uma comparação infelizmente muito comum. Primeiramente, porque não se pode comparar a dignidade sexual de alguém com um bem patrimonial/financeiro; o ser com o ter. Depois, porque esse tipo de raciocínio é muito subjetivo. O que é considerado provocativo? O que acho perigoso é a defesa que alguns fazem ao cerceamento de liberdade de ir e vir das mulheres. Se andar na rua deixa a mulher vulnerável a abusos, e tais abusos são considerados naturais (vide as “cantadas”, ou a passada de mão), e é dever único e exclusivo das mulheres evitar tais abusos, qual é a solução? Ficar em casa (não trabalhar/estudar/sair)?

O abuso sexual é um medo constante das mulheres. Acontece que não há uma cartilha de como ocorre o estupro, não há como prever que alguém é um estuprador. Concordo que todos devem ter cautela, mas o cerceamento da nossa liberdade de ir e vir não faz parte disso. Além disso, a maioria dos estupros ocorrem dentro de casa, e por pessoas conhecidas. Como a roupa influencia nesses casos?

3- A Marcha das Vadias é um incentivo à promiscuidade e ao sexo irresponsável.

Não, a Marcha não promove o sexo irresponsável. A Marcha promove a liberdade sexual da mulher. O que isso significa? Significa que a mulher não deve ser desrespeitada por ter desejo sexual, assim como o homem heterossexual não é. Se a mulher gosta de sexo, se ela teve mais de um parceiro sexual, se ela faz sexo casual, adivinhe só: isso não dá a ninguém o direito de desrespeitar essa mulher; de xingá-la e humilhá-la. Assim como ninguém tem o direito de fazer isso com um homem. Ter desejo sexual e gostar de sexo não é moralmente condenável.

4- Querem obrigar o homem a ficar/namorar/casar com uma mulher “rodada”.

É óbvio que ninguém deva ser obrigado a se relacionar com alguém (vide friendzone). Se não há compatibilidade, parte pra outra e pronto. Não há necessidade de desrespeitar, de xingar. Isso é tão difícil de entender? Uma curiosidade: quantos parceiros sexuais uma mulher deve ter para ser “rodada”? Esse conceito não é desrespeitoso por si só, por vincular o valor de alguém a sua “quilometragem” sexual? Por que há tantos termos pejorativos para criticar a sexualidade feminina? Termos como vadia, puta, piranha, vagabunda só tem esse peso para mulheres. Qual é a finalidade disso? Se a sexualidade masculina não pode ser reprimida, por que a feminina o é?

5- O homem também sobre pressão sobre o modo de viver sua sexualidade.

Sim, o machismo é prejudicial a todos, não somente às mulheres. Apesar de o machismo ser uma ideologia que afirma a superioridade do homem em relação à mulher, os homens não estão livres da pressão social. A obrigação de ser pegador, provedor, forte, viril, calculista e de não demonstrar emoções é ainda muito forte. O homem que não “age como homem” tem sua masculinidade posta em dúvida. E claro, em uma sociedade heteronormativa, onde homossexuais são alvo de chacota e violência por serem homossexuais; ser chamado ou “confundido” com um homossexual é um insulto para a maioria.

Qual é a solução: continuar a discriminar homossexuais (obs.: texto ótimo sobre o tema no Abstraindo a Realidade, de Ramiro Catelan 🙂 ) e ridicularizar homens que não se encaixam no padrão viril, ou buscar meios de repensar a masculinidade e a posição do homem no mundo? Já é hora de abandonar essa ideologia que discrimina homens e mulheres por exercerem sua sexualidade livremente. Criticar uma Marcha que busca o questionamento dessa ideologia não vai mudar a situação dos homens. A Marcha das Vadias é impassível de críticas então? Nada é impassível de críticas, mas críticas incoerentes serão questionadas.

Por hoje é só, espero vocês na Marcha!

Marcha das Vadias – Porto Alegre. Dia 27/05 (Domingo). Às 13h, concentração no Arco da Redenção. 16h – Saída da Marcha.

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Amanda Gurgel

Onde assino?

A repercussão desses vídeos só mostram que o problema é URGENTE. É deplorável a situação dos professores, e sinceramente não entendo como uma classe tão importante de trabalhadores possa ser ignorada assim.

O professor é o primeiro contato entre o ser humano e o conhecimento, é a base da carreira de qualquer um. Sem professores não há profissionais de nenhuma área, basicamente. Realmente, é um peso muito grande ser professor, e infelizmente eles não recebem incentivo algum para o exercício de suas atividades.

Como disse Amanda Gurgel, o problema hoje está banalizado. Quem não lembra da famosa frase do programa humorístico A Escolinha do Professor Raimundo, dita por Chico Anysio, que interpretava o professor? Ser professor e ser mal remunerado virou a mesma coisa!

Não podemos mais ver isso como uma realidade, o problema é muito sério. Como podemos ser um país desenvolvido sem uma boa base educacional?

Um artigo interessante sobre o tema: Afinal, qual é o problema da educação?