Diga NÃO ao estupro corretivo

Eu estou completamente enojada com o que vi internet afora nesses dias, sério. Enojada, porém não surpresa. A notícia de que duas garotas de 16 anos denunciaram os integrantes da banda New Hit por estupro está dando o que falar nas redes sociais e mobilizando muita gente. O problema é que a mobilização é a favor dos integrantes. Quando vi isso pela primeira vez, achei que fosse porque eles tiveram seu direito a defesa cerceado ou algo do tipo, mas não. A mobilização (e a consequente perseguição às vítimas do abuso) está acontecendo pelo simples fato de haver denúncia. Exatamente: os fãs estão putinhos da vida porque seus ídolos não estão imunes ao sistema penal.

Eu pensei que nunca fosse precisar explicar o óbvio, mas aí vai: xingar/ameaçar/perseguir a quem denuncia crimes sexuais é o cúmulo da falta de empatia do ser humano e ajuda a perpetuar o silêncio das vítimas e a impunidade dos agressores. Parabéns, galerë! Assimilaram a cultura de estupro direitinho.

E que mídia, hein? Não podem nem sair de casa de tanta ameaça que recebem. É definitivamente o sonho de qualquer um 😉

Isso mesmo meninas, agora aguentem a ignorância desses boçais!

Claro, porque toda mulher que é estuprada no fundo queria dar mesmo, né? É só papinho…

Hmm, deixa eu ver: mulher denunciar homens por estupro? É cheira a mentira. Estupro não existe no Brasil.

Todo mundo sabe que um estupro só é legítimo quando ocorre com a mulher honesta, santa (canonizada depois de morta, sabe?) e assexuada, pois se a mulher tiver desejo sexual em algum momento da vida e ter uma paixonite por um ídolo (coisa que fã de verdade nunca teve), é porque não presta mesmo e não merecem respeito. Ou seja: o estupro é liberado, galerë! É só papinho e elas tem que aguentar!

Mulher que não é inocente não é estuprada, gente. Cabsurdo a mentira dessas meninas!

Claro, porque o estupro legítimo é altamente estereotipado e meninas que são forçadas a vender o corpo pelos próprios pais não estão sendo estupradas né, gente? São tudo safada mesmo e sabem se defender!

Onde já se viu as meninas terem a audácia de denunciar um estupro, né não? Tudo cachorra! Todo mundo sabe denúncias deixam qualquer um milionário. Vou lá denunciar um roubo e já volto com meus 2 milhões de reais…

Passou de 15 e 16 anos? Tudo puta! E o mais engraçado é que o que mais aparece é gente que tem “contatos” com a banda agora.

É mesmo, nem tinha me dado conta disso! Por que eu estou aqui reclamando da impunidade nos casos de estupro se há tantos estupros que nunca foram denunciados, não é mesm… OH WAIT

Meninas assanhadas querendo autógrafo? Estupro nelas! Estupro a todas que pedem autógrafo, pois todos os homens são estupradores disfarçados!

Claro que não foi forçado! Elas provocaram, pediram o estupro. Qualquer negativa delas foi frescurite! Estupro corretivo nelas!

Estupro não existe no Brasil gente, já que ninguém é obrigado a fazer nada que não queira 😉 FikDik :@

Eles devem ser presos pelo estupro sim, mas as meninas estupradas devem pagar por suas safadezas! Quem tem idade pra votar não pode reclamar de estupro.

Ameaçar a quem denuncia estupro é coisa de homens de BEM. Viva a impunidade, gente.

Estupro corretivo é para as meninas que não se dão valor. Tomem vergonha na cara!

Entrar em camarim de ídolo para pedir autógrafo e tirar foto? Coisa de puta que quer ser estuprada, lógico!

Gente, eu tenho mais alguns prints aqui, mas o nojo é maior e eu me abstenho de postar mais comentários asquerosos dessa gente tosca. Sabe o que eu acho mais ilógico nessa história toda? Os fãs da bandeca (tá mais pra bandecu) vivem repetindo que ninguém deve julgar os “garotos da New Hit”, que “só deus pode julgar” (claro, nosso sistema penal é só enfeite), mas são os primeiros a xingar, ameaçar, perseguir e humilhar as vítimas. Vários estão postando fotos delas no facebook (e é proibido fazer isso).

Outra coisa que notei foi gente pedindo a morte dos integrantes da banda, querendo destruir a casa dos familiares e tal. Pqp! Deixem a justiça privada de lado, ninguém aqui pode aplicar sanções penais. Ah, e desejar que eles sejam estuprados na cadeia também é naturalizar o estupro, é reforçar a ideia de estupro corretivo “para quem merece”. Eu repudio esse tipo de pensamento. Eles tem direito a um processo justo e humano, com garantia de ampla defesa. Aliás, é isso o que está faltando nesse caso: o respeito ao ser humano. Vamos ter mais empatia e parar de julgar as vítimas?

Marcha das Vadias 2012 – Porto Alegre

A Marcha de Poa foi simplesmente contagiante! Muita gente apareceu (embora menos do que o esperado, o que é normal) e todos estavam na mesma sintonia. O caráter feminista da Marcha foi inquestionável e felizmente não houve tumultos. O pessoal tirava fotos sem parar e os que não gostavam faziam uma cara feia, no mínimo. A maioria recepcionou a Marcha com alegria e curiosidade.

Agora, as fotos:

Preparação da faixa principal

Marcha em andamento.
Site: G1

Frases deste ano

Acontecimentos recentes

Participação dos homens

Respeito

Andresa, foi muito legal te conhecer na Marcha!

Eu na Marcha

O machismo também prejudica os homens (Ramiro – amigo do peito – e Gabriel)

Marcha Mundial das Mulheres

Gente do Testosterona e blogs afins, é válido querer diminuir um movimento contra a violência sexual à mulher por erros de ortografia em um cartaz?

Por Que Marcha das Vadias?

Com a proximidade do evento, muitos tem se perguntado o porquê do nome da Marcha. Neste texto, juntarei links de posts sobre a Marcha, para apresentá-la de modo geral.

A Marcha começou no Canadá, após um policial afirmar, em uma universidade, que as mulheres deveriam parar de se vestir como vadias, a fim de evitar estupros. Chamada de SlutWalk, o objetivo da marcha é o de reapropriar o termo “vadia” (slut), e de mostrar que o modo como uma mulher vive sua sexualidade não deve ser visto como justificativa para crimes.

A SlutWalk gerou uma reação em cadeia, e várias Marchas foram feitas em diversas cidades do mundo. A tendência é que a Marcha se espalhe cada vez mais. Cabe a nós mudarmos conceitos nocivos às mulheres, como a objetificação sexual. Se engana quem acredita que a Marcha das Vadias defenda e/ou promova a objetificação da mulher.

A objetificação, é sempre bom lembrar, é a desumanização da mulher, ou seja, a mulher vista como uma coisa genérica, sem personalidade própria, vontades e sentimentos. Se não conseguimos reconhecer um grupo como seres humanos, não há empatia, e a violência contra tal grupo torna-se menos grave, ou até justificável.

Textos excelentes sobre a Marcha:

Marcha das Vadias – Revista TPM

A Marcha das Vadias e a mercantilização do corpo e vida das mulheres – SOF

Viva a Marcha das Vadias! Já a reação a ela… – Escreva Lola Escreva

Oito ideias para entender a Marcha das Vadias – Revista Parafuso

Inevitável é, ao falar sobre a Marcha, esclarecer algumas críticas infundadas. Vamos a elas:

1- É uma manifestação anti-homem. Coloca as mulheres como vítimas e homens como algozes.

Não, não é uma manifestação anti-homem, muito menos uma declaração de ódio aos homens, ou a visão de que todos os homens são estupradores em potencial. O foco da Marcha simplesmente não está nos homens. Isso quer dizer que eles estão proibidos de participar? Evidentemente que não. Todos são bem-vindos e é inclusive importante que homens estejam na Marcha, a preocupação com a violência sexual não é um assunto somente feminino. Mas os homens não são vistos como algozes da objetificação feminina? Não, não há um único responsável pela objetificação, que resulta do machismo. Machismo não é um comportamento intrinsecamente masculino. Há pessoas (homens E mulheres) machistas, creio que em igual proporção. Não vemos homens como vilões, e o mundo não é simplista, não há a luta do bem contra o mal aqui. O lema é a conscientização de todos.

2- As mulheres querem viver irresponsavelmente. Todos nós temos que assumir a responsabilidade por nossos atos. Se eu andar pela rua com dinheiro nas mãos, ou com um relógio caro à vista, não posso reclamar se for assaltado. Do mesmo modo, uma mulher que anda na rua com pouca roupa chama a atenção do estuprador.

Eu não gosto quando comparam estupros a furtos ou roubos, e é uma comparação infelizmente muito comum. Primeiramente, porque não se pode comparar a dignidade sexual de alguém com um bem patrimonial/financeiro; o ser com o ter. Depois, porque esse tipo de raciocínio é muito subjetivo. O que é considerado provocativo? O que acho perigoso é a defesa que alguns fazem ao cerceamento de liberdade de ir e vir das mulheres. Se andar na rua deixa a mulher vulnerável a abusos, e tais abusos são considerados naturais (vide as “cantadas”, ou a passada de mão), e é dever único e exclusivo das mulheres evitar tais abusos, qual é a solução? Ficar em casa (não trabalhar/estudar/sair)?

O abuso sexual é um medo constante das mulheres. Acontece que não há uma cartilha de como ocorre o estupro, não há como prever que alguém é um estuprador. Concordo que todos devem ter cautela, mas o cerceamento da nossa liberdade de ir e vir não faz parte disso. Além disso, a maioria dos estupros ocorrem dentro de casa, e por pessoas conhecidas. Como a roupa influencia nesses casos?

3- A Marcha das Vadias é um incentivo à promiscuidade e ao sexo irresponsável.

Não, a Marcha não promove o sexo irresponsável. A Marcha promove a liberdade sexual da mulher. O que isso significa? Significa que a mulher não deve ser desrespeitada por ter desejo sexual, assim como o homem heterossexual não é. Se a mulher gosta de sexo, se ela teve mais de um parceiro sexual, se ela faz sexo casual, adivinhe só: isso não dá a ninguém o direito de desrespeitar essa mulher; de xingá-la e humilhá-la. Assim como ninguém tem o direito de fazer isso com um homem. Ter desejo sexual e gostar de sexo não é moralmente condenável.

4- Querem obrigar o homem a ficar/namorar/casar com uma mulher “rodada”.

É óbvio que ninguém deva ser obrigado a se relacionar com alguém (vide friendzone). Se não há compatibilidade, parte pra outra e pronto. Não há necessidade de desrespeitar, de xingar. Isso é tão difícil de entender? Uma curiosidade: quantos parceiros sexuais uma mulher deve ter para ser “rodada”? Esse conceito não é desrespeitoso por si só, por vincular o valor de alguém a sua “quilometragem” sexual? Por que há tantos termos pejorativos para criticar a sexualidade feminina? Termos como vadia, puta, piranha, vagabunda só tem esse peso para mulheres. Qual é a finalidade disso? Se a sexualidade masculina não pode ser reprimida, por que a feminina o é?

5- O homem também sobre pressão sobre o modo de viver sua sexualidade.

Sim, o machismo é prejudicial a todos, não somente às mulheres. Apesar de o machismo ser uma ideologia que afirma a superioridade do homem em relação à mulher, os homens não estão livres da pressão social. A obrigação de ser pegador, provedor, forte, viril, calculista e de não demonstrar emoções é ainda muito forte. O homem que não “age como homem” tem sua masculinidade posta em dúvida. E claro, em uma sociedade heteronormativa, onde homossexuais são alvo de chacota e violência por serem homossexuais; ser chamado ou “confundido” com um homossexual é um insulto para a maioria.

Qual é a solução: continuar a discriminar homossexuais (obs.: texto ótimo sobre o tema no Abstraindo a Realidade, de Ramiro Catelan 🙂 ) e ridicularizar homens que não se encaixam no padrão viril, ou buscar meios de repensar a masculinidade e a posição do homem no mundo? Já é hora de abandonar essa ideologia que discrimina homens e mulheres por exercerem sua sexualidade livremente. Criticar uma Marcha que busca o questionamento dessa ideologia não vai mudar a situação dos homens. A Marcha das Vadias é impassível de críticas então? Nada é impassível de críticas, mas críticas incoerentes serão questionadas.

Por hoje é só, espero vocês na Marcha!

Marcha das Vadias – Porto Alegre. Dia 27/05 (Domingo). Às 13h, concentração no Arco da Redenção. 16h – Saída da Marcha.

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O que realmente importa?

Tenho acompanhado as discussões sobre o suposto estupro no BBB e resolvi expor o que observei nesses últimos dias.

Primeiramente, eu já esperava essa enxurrada de comentários machistas, principalmente no Facebook, culpando Monique pelo ocorrido, pois é o que sempre acontece quando um caso de estupro é noticiado na mídia, sem exceções. É incrível a incapacidade (ou seria negação?) das pessoas em geral de entender que o comportamento de uma mulher NUNCA é justificativa de estupro. Começando pelo óbvio: uma mulher não é estuprada por seu passado sexual, ou pelas roupas que usa, ou por beber demais e muito menos por “dar mole”. Uma mulher é estuprada porque alguém a estuprou, simples assim. Não sei o que houve naquela madrugada no BBB, mas se Monique realmente estava desacordada na hora, a conduta entra no tipo de estupro de vulnerável, não há dúvidas quanto a isso. O objetivo da investigação é saber se ela estava acordada ou não, não querem saber se ela deu mole primeiro, ou se ela foi “fácil”, tampouco querem investigar o passado sexual dela, pois tais coisas são absolutamente irrelevantes em um caso de estupro.

Infelizmente, também não esperava uma atitude ética por parte da Globo, que esta fazendo de tudo para abafar o caso. Só o fato de haver uma suspeita de estupro dentro do programa mostra que a integridade física e sexual (e demais bens jurídicos dos participantes) não estão sendo devidamente protegidos pela Globo, que teria o dever de interferir logo que uma situação dessas acontecesse. A bizarrice não termina aí, Boninho, diretor do BBB, foi categórico ao afirmar que “não houve estupro”. Parece que o papel de Grande Irmão subiu à cabeça desse boçal, que se acha acima de tudo e de todos. Se não fosse pelo bafafá virtual, talvez suas táticas de controle e manipulação tivessem funcionado. Daniel saiu da casa e a polícia está investigando o caso, mas a Globo não desiste nunca, não é mesmo? Dentro do BBB, é como se Daniel nunca tivesse existido e ninguém toca no assunto, mais um feito do Grande Irmão. Para finalizar o circo de horrores, Monique continua dentro da casa, sem poder falar sobre o que houve, sem acesso às imagens daquela noite, enfim, sem direito a informação e autonomia sobre o próprio corpo. E o acompanhamento psicológico? E o direito a um advogado? Como ela pode depor sobre algo que não sabe? O mais importante agora é dar voz à Monique.

O silêncio dos participantes, a demonização de Monique pelos internautas e o descaso da Globo são reflexos do que acontece em demais casos de estupro, considerado um grande tabu ainda. O senso comum pinta o estupro como um crime raro, e que só mulheres honestas/de família seriam vítimas legítimas, sendo o agressor um desconhecido que ataca na calada da noite. Se a mulher for “fácil” (odeio essa palavra), beber, andar sozinha na rua (principalmente à noite), não for virgem, usar roupas curtas, ou fizer qualquer outra coisa fora do esperado para uma “mocinha comportada”, é porque mereceu ser estuprada, pediu por isso, e que sofra as consequências, afinal “quando um não quer, dois não fazem”.

Casos como esse nos mostram que estupro pode ocorrer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, nas mais diversas situações. Mesmo que, no fim, reste provado que não houve estupro no BBB, o caso já serviu para mostrar como a cultura de estupro funciona.

Cultura de estupro?? Sim, isso mesmo. É achar que um estupro pode ser minimizado conforme o comportamento da mulher; é achar que o corpo da mulher é propriedade pública, e que qualquer homem tem o direito de usar o corpo de uma mulher que “merece”; é ensinar mulheres a não ser estupradas, não homens a não estuprar; é achar que homens são animais irracionais incapazes de controlar o desejo sexual; é objetificar o corpo da mulher, não reconhecendo-a como um ser humano; é usar estupro como arma de guerra; é dizer que, quando uma mulher diz “não”, ela quer dizer “sim”; é reclamar de friendzone, como se a mulher não tivesse direito a escolher seu parceiro, e a lista segue

Links sobre o assunto:

1- O Brasil não conhece os limites do abuso sexual

2- Caso de estupro pode fazer Globo perder concessão do reality