O Ativismo Poser da Femen Br

A Femen, movimento feminista ucraniano que surgiu em 2008, chama bastante atenção da mídia para seus protestos (geralmente contra a exploração e o turismo sexual) por um simples fato: fazem topless. O problema não é esse, já que, dentro de um contexto, mostrar os seios representa uma quebra de paradigmas machistas, onde a mulher afirma que seu corpo é somente seu, e não serve apenas para deleite masculino.

O que eu acho problemático é elas mostrarem o corpo com o objetivo de chamar a atenção da mídia somente. Do que adianta mostrar o corpo para destacar o movimento se a mensagem fica em segundo plano? Do que adianta um protesto sem uma crítica consistente? De que adianta criticar o machismo, se as manifestantes estão todas dentro do padrão de beleza vigente? Um pouco de coerência não faz mal.

Enfim, eu já não sentia firmeza no Femen da Ucrânia, e agora que o movimento veio para o Brasil, minha descrença e vergonha alheia aumentaram consideravelmente.

Sara Winter, porta-voz da Femen no país, foi à Ucrânia para aprender o modus operandi das ativistas de lá e trazer o movimento para terras tupiniquins. Sua viagem foi registrada pela mídia brasileira e a piá (tem 20 anos como eu) parecia estar bem deslocada nas entrevistas. Declarou ser neofeminista, mas nunca explicou o que ela entende sobre feminismo. Vive falando sobre ativismo e lutas, mas não deixou clara a pauta da Femen Br (protesto contra a pirataria de livros wtf?), e não soube explicar o contexto dos questionamentos feministas (vide entrevista com o Danilo Gentili).

E o pior nem é isso, é saber que em um passado não tão distante (até o ano passado) ela simpatizava com ideologias neonazistas. Em um blog (le cult rats), ela dizia ser da direita nacionalista e criticou a Marcha das Vadias, pois achava que mostrar os seios em protestos era querer ibope, e que as meninas tinham que se dar o respeito. Bem, as pessoas crescem, refletem e eventualmente mudam de opinião ao longo da vida, né? O problema é que eu acho muito difícil que uma pessoa que mudou tão drasticamente de ideologia em menos de um ano esteja pronta para ser porta-voz de um movimento “neofeminista”.

Desde essa descoberta (a internet, como sempre, mostrando o passado da galerë), a página da Femen Br no facebook recebeu vários questionamentos, críticas e tirações de onda (afinal, É a internet :P). A reação das ativistas me lembrou as justificativas furadas que empresas dão quando os consumidores criticam seus produtos ou peças publicitárias: negam até a morte que algo esteja errado, e quando veem que não dá para abafar o caso, rola um mea culpa meia boca e inconclusivo.

Trecho: “O Femen vem através desta mensagem reconhecer os erros de comunicação e o despreparo de alguns integrantes, principalmente aqui no facebook.
Nós perdemos o foco da luta e da missão ao entrarmos e comentarmos discussões desnecessárias.
A grande repercussão do Femen nos últimos dias, nos forçou a rever nossos conceitos que eram baseados na realidade ucraniana. Hoje, após algumas ações, percebemos que a realidade brasileira é outra e devemos adaptar o movimento. Por isso, desde já estamos estudando uma estratégia de comunicação e ação distintas das utilizadas até o momento. Isso inclui as linhas de pensamento e lutas sociais também.

Definimos como nossa missão: Chamar a atenção da população para problemas negligenciados pelos órgão responsáveis. E aqueles que não acreditam no Femen como um movimento sério, somente o tempo dirá.”

Ah, atentem para o absurdo de se declararem “apolíticas”. Como pode um ativismo ser apolítico, me expliquem!

Se bem que, alguns conseguem a proeza de defender que ativismo não tenha base alguma…

Como, meu god, podemos confiar em um grupo que não sabe dizer a que veio? As ativistas da Femen Br precisam ter alguma base primeiro, algo que dê suporte ao movimento. Não adianta dizer que lutam, que protestam, mas sim sobre O QUÊ lutam e protestam.

Atualização: acabei de ver a Twitcam da Sara Winter e não acho que ela estava mentindo. Ela confirmou que participou de grupos integralistas e fascistas apenas na internet (tem gente dizendo que não, que ela frequentava a cena dos “carecas” e tal). Disse que mudou radicalmente de opinião de um ano pra cá, e que hoje se considera neofeminista.  Também pediu desculpas a todas que participaram das Marchas das Vadias no mundo, pelas declarações feitas em seu blog em 2011.

Perguntei sobre o neofeminismo, mas não entendi muito bem a resposta. Ela disse que a proposta era o topless, manifestar-se mostrando o corpo, lutar contra todo o tipo de patriarcado e opressão. Ok, só não entendi no que isso é diferente do feminismo.

Sobre as propostas da Femen: ainda estão em construção. Ela admite que há muito o que pesquisar e discutir antes de se firmar como um grupo. Disse que disponibilizarão textos para que nós saibamos de fato o que ficar decidido, e que será feita uma Twitcam por semana, para que mais perguntas sejam respondidas. Ela também disse que, como o contexto do Brasil é diferente, elas vão estudar melhores formas de se posicionar.

Sobre o protesto contra a pirataria de livros: Sara disse que Bruna (outra ativista da Femen) resolveu participar sozinha do protesto, sem representar o grupo. Se foi este o caso, elas deveriam ter tomado maior cuidado para que as causas não fossem misturadas como foram.

Sobre o processo de seleção: as interessadas devem preencher um formulário, para definir o perfil político e ideológico, e também devem mostrar que aguentam a pressão e as críticas por se exporem seminuas. Ela disse que as ativistas não são escolhidas pela característica física.

Enfim, fiz um resumão sobre o essencial, teve muita repetição e muita resposta nada a ver (como falar sobre a ratinha morta, ou sobre o ex-namorado), mas de interessante mesmo foi isso. Continuo questionando sobre sua capacidade de ser a porta-voz de um grupo neofeminista (seja lá o que isso for), já que suas opiniões mudaram radicalmente em um curto espaço de tempo, e não estão maduras o suficiente para que ela sirva de base a um movimento de peso. O questionamento continua o mesmo em relação ao posicionamento ideológico, mas como ela está conhecendo o feminismo agora, pode ser que ela seja mais firme e convicta daqui a algum tempo, quando estiver mais familiarizada.

Marcha das Vadias 2012 – Porto Alegre

A Marcha de Poa foi simplesmente contagiante! Muita gente apareceu (embora menos do que o esperado, o que é normal) e todos estavam na mesma sintonia. O caráter feminista da Marcha foi inquestionável e felizmente não houve tumultos. O pessoal tirava fotos sem parar e os que não gostavam faziam uma cara feia, no mínimo. A maioria recepcionou a Marcha com alegria e curiosidade.

Agora, as fotos:

Preparação da faixa principal

Marcha em andamento.
Site: G1

Frases deste ano

Acontecimentos recentes

Participação dos homens

Respeito

Andresa, foi muito legal te conhecer na Marcha!

Eu na Marcha

O machismo também prejudica os homens (Ramiro – amigo do peito – e Gabriel)

Marcha Mundial das Mulheres

Gente do Testosterona e blogs afins, é válido querer diminuir um movimento contra a violência sexual à mulher por erros de ortografia em um cartaz?

Blogagem Coletiva: estupros como presente em Queimadas – PB

Post para a Blogagem Coletiva iniciada pelo Luluzinha CampBlogueiras Feministas.

Portal Belmonte Notícias

Como muitos, fiquei sabendo desses crimes absurdos através de blogs e artigos na internet (aqui, aqui, aqui e aqui, pra começar). Apesar de saber que vivemos em uma sociedade machista, que naturaliza o estupro, nunca deixarei de me chocar com crimes tão cruéis como esse, eu não quero acreditar que 10 homens normais (nada de tarados psicopatas desconhecidos em becos escuros), amigos e familiares das vítimas, se sentiram tão merecedores de seus corpos que planejaram os estupros como “presente” de aniversário. Não quero acreditar que as mulheres são vistas assim, como meros objetos sexuais, sem vontades, sem sentimentos. Eram todos psicopatas? Marginais? Anormais? Eram homens comuns, com família, emprego, amigos, etc. Não quero MESMO acreditar que seja assim tão fácil reunir 10 homens para estuprar e matar mulheres. Infelizmente é a realidade, não podemos ignorá-la.

Essa dificuldade em reconhecer mulheres como seres humanos complexos não é coisa de uns poucos criminosos, é de uma sociedade inteira. Somos educadas a nos inferiorizar, e homens são educados para nos inferiorizar também. A palavra “mulherzinha” é um xingamento para quem é fresco, fraco, ou faz coisas consideradas femininas, como cuidar da casa, cozinhar, se arrumar, ou, simplesmente, chorar. Ser mulher é tão humilhante assim para virar xingamento?

Vamos analisar os papéis de gênero. Meninas e meninos são divididos desde cedo, a interação não é encorajada. Os brinquedos voltados para meninas são delicados, meigos, cor-de-rosa. Aprendemos a cozinhar, a cuidar da casa, dos bebês, a valorizar a amizade e a família, a sonhar com contos-de-fada e romances. Devemos ser dóceis e quietas, submissas. Com os garotos é bem diferente. Eles são encorajados a correr, se aventurar, ganham brinquedos violentos e animados. Para eles, nem o céu é o limite, e valores como coragem, bravura, força e dominação lhe são ensinados desde pequenos.  Basicamente: mulheres são criadas para dar carinho e cuidar, enquanto homens, para lutar e dominar. É saudável educar metade da população para a passividade e outra para a agressividade? Separar crianças por gênero dificulta a empatia um pelo outro.

A segregação continua na adolescência. Uma enxurrada de livros e revistas teen surgem com mil e uma explicações sobre como se aproximar do sexo oposto (se a garotada brincasse junta, tais dicas não seriam necessárias). As diferenças ficam mais aparentes (e a mídia adora explorar isso). Começa aquela baboseira toda de “mulheres são de Vênus e homens são de Marte” (deusa do amor e deus da guerra, respectivamente). TCHARAM!! Viramos seres de outra espécie.

 

O “universo feminino” é taxado de fútil, superficial e volúvel. Mulheres são infantilizadas, estéricas e frescas (Sex and the City não me deixa mentir, nem Meninas Malvadas). Tudo o que é feminino é menosprezado pelos homens (e até por nós mesmas!), é menos importante, frescura.

Não termina por aí, também somos objetificadas no clube do bolinha. Comerciais de cerveja são um bom exemplo de como a mulher é vendida ao homem. Um brinquedo/serva sexual, pronta para satisfazer qualquer sede do homem. São mulheres sem vontade própria, sua sexualidade é apenas voltada ao homem, nunca ao prazer próprio.

Até em filmes há uma dificuldade em representar mulheres como seres humanos comuns, e o Bechdel Test analisa isso. É um teste simples: o filme deve conter (1) duas ou mais personagens mulheres que tenham nomes(2) que falam uma com a outra (3) sobre qualquer coisa, menos homens. Se o filme passar no teste, ele representa mulheres como seres humanos, e é incrível como muitos não passam. Mais informações sobre o teste aqui.

Não enxergar a mulher como pessoa é o cerne da cultura de estupro. Quem tenta justificar um estupro, ou culpar a mulher estuprada, não a reconhece como semelhante, como sujeito.  Cultura de estupro é dizer que homens não controlam seus impulsos sexuais, é ensinar meninas e mulheres a não serem estupradas e a responsabilizá-las pelo estupro sofrido. A cultura de estupro pode aparecer através de piadas, ou de estupros coletivos como presente de aniversário.

Obs.: (1) Não, eu não disse que todos os homens são estupradores/maus, critico a ideologia machista (2) tampouco nego que outros grupos de pessoas sejam estereotipados e marginalizados na sociedade (3) o fato de eu apresentar esse problema não quer dizer que negue, ou não me importe, com outros tipos de discriminação. Digo isso porque sempre aparece um zé mané pra falar essas besteiras quando alguém questiona e critica o machismo.