O que realmente importa?

Tenho acompanhado as discussões sobre o suposto estupro no BBB e resolvi expor o que observei nesses últimos dias.

Primeiramente, eu já esperava essa enxurrada de comentários machistas, principalmente no Facebook, culpando Monique pelo ocorrido, pois é o que sempre acontece quando um caso de estupro é noticiado na mídia, sem exceções. É incrível a incapacidade (ou seria negação?) das pessoas em geral de entender que o comportamento de uma mulher NUNCA é justificativa de estupro. Começando pelo óbvio: uma mulher não é estuprada por seu passado sexual, ou pelas roupas que usa, ou por beber demais e muito menos por “dar mole”. Uma mulher é estuprada porque alguém a estuprou, simples assim. Não sei o que houve naquela madrugada no BBB, mas se Monique realmente estava desacordada na hora, a conduta entra no tipo de estupro de vulnerável, não há dúvidas quanto a isso. O objetivo da investigação é saber se ela estava acordada ou não, não querem saber se ela deu mole primeiro, ou se ela foi “fácil”, tampouco querem investigar o passado sexual dela, pois tais coisas são absolutamente irrelevantes em um caso de estupro.

Infelizmente, também não esperava uma atitude ética por parte da Globo, que esta fazendo de tudo para abafar o caso. Só o fato de haver uma suspeita de estupro dentro do programa mostra que a integridade física e sexual (e demais bens jurídicos dos participantes) não estão sendo devidamente protegidos pela Globo, que teria o dever de interferir logo que uma situação dessas acontecesse. A bizarrice não termina aí, Boninho, diretor do BBB, foi categórico ao afirmar que “não houve estupro”. Parece que o papel de Grande Irmão subiu à cabeça desse boçal, que se acha acima de tudo e de todos. Se não fosse pelo bafafá virtual, talvez suas táticas de controle e manipulação tivessem funcionado. Daniel saiu da casa e a polícia está investigando o caso, mas a Globo não desiste nunca, não é mesmo? Dentro do BBB, é como se Daniel nunca tivesse existido e ninguém toca no assunto, mais um feito do Grande Irmão. Para finalizar o circo de horrores, Monique continua dentro da casa, sem poder falar sobre o que houve, sem acesso às imagens daquela noite, enfim, sem direito a informação e autonomia sobre o próprio corpo. E o acompanhamento psicológico? E o direito a um advogado? Como ela pode depor sobre algo que não sabe? O mais importante agora é dar voz à Monique.

O silêncio dos participantes, a demonização de Monique pelos internautas e o descaso da Globo são reflexos do que acontece em demais casos de estupro, considerado um grande tabu ainda. O senso comum pinta o estupro como um crime raro, e que só mulheres honestas/de família seriam vítimas legítimas, sendo o agressor um desconhecido que ataca na calada da noite. Se a mulher for “fácil” (odeio essa palavra), beber, andar sozinha na rua (principalmente à noite), não for virgem, usar roupas curtas, ou fizer qualquer outra coisa fora do esperado para uma “mocinha comportada”, é porque mereceu ser estuprada, pediu por isso, e que sofra as consequências, afinal “quando um não quer, dois não fazem”.

Casos como esse nos mostram que estupro pode ocorrer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, nas mais diversas situações. Mesmo que, no fim, reste provado que não houve estupro no BBB, o caso já serviu para mostrar como a cultura de estupro funciona.

Cultura de estupro?? Sim, isso mesmo. É achar que um estupro pode ser minimizado conforme o comportamento da mulher; é achar que o corpo da mulher é propriedade pública, e que qualquer homem tem o direito de usar o corpo de uma mulher que “merece”; é ensinar mulheres a não ser estupradas, não homens a não estuprar; é achar que homens são animais irracionais incapazes de controlar o desejo sexual; é objetificar o corpo da mulher, não reconhecendo-a como um ser humano; é usar estupro como arma de guerra; é dizer que, quando uma mulher diz “não”, ela quer dizer “sim”; é reclamar de friendzone, como se a mulher não tivesse direito a escolher seu parceiro, e a lista segue

Links sobre o assunto:

1- O Brasil não conhece os limites do abuso sexual

2- Caso de estupro pode fazer Globo perder concessão do reality

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